Stalin – O ex-seminarista

Stalin – O ex-seminarista

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Texto retirado do livro: “De Hitler a Pol Pot: os homens que ensanguentaram o século 20”.
Autor: Antônio Ghirelli 




“Quando Lady Astor, unindo a franqueza dos americanos à arrogância da 

aristocracia inglesa nos confrontos com os inferiores, perguntou-lhe por quanto tempo ainda

continuaria a assassinar,

Stalin permaneceu imperturbável. ‘Até quando for necessário’, respondeu.”

ADAM B. ULAM

Do seminário a Lenin O encontro com Lenin, que decidiria seu destino, aconteceu na Finlândia, em dezembro de 1905. Mal havia estourado a primeira revolução russa do século, a “prova geral” do Outubro Vermelho de doze anos depois, quando os bolcheviques se encontraram em Tammerfors, em uma conferência semiclandestina da qual Stalin participaria como delegado do partido georgiano. A primeira impressão foi de desilusão: “Eu esperava”, diria ele posteriormente, “ver a águia do nosso partido, o grande homem, grande não só politicamente, mas, por assim dizer, também fisicamente, porque Lenin se apresentava à minha imaginação como um gigante de bela figura, com um ar imponente. Qual não foi, porém, a minha desilusão quando vi um  homem  dos mais comuns, de estatura inferior à média, que não se distinguia em nada, em absolutamente  nada, dos simples mortais.”

Naturalmente, Lenin também deve ter então considerado aquele jovem caucasiano como um militante qualquer, sem suspeitar, nem  ao menos de longe, de que ele seria o seu futuro sucessor, o discípulo que iria ultrapassar o mestre e, em muitos sentidos, embalsamá-lo. Naquela época Iosif Visarionovic Dzugashvili tinha ainda 26 anos e há apenas seis se dedica por completo à  luta  política. Segundo uma ficha de dados compilada pela polícia czarista depois de  sua  primeira prisão, trata-se de um tipo comum ou, melhor, atarracado, de estatura média para baixa, com cerca de um metro e sessenta e dois, barba e bigodes escuros, a fisionomia marcada pela varíola e uma particularidade singular: tem o segundo e  o terceiro dedos do pé  esquerdo unidos. Desde  jovem  tem  uma lesão no braço esquerdo que lhe paralisa parcialmente os movimentos. O pai teria sido o seu causador.

Iosif nasce em Gori, uma pequena cidade a 60 quilômetros de distância  de  Tiflis (depois Tibilisi), capital da Geórgia, em 6 de dezembro de 1879, e passa sua infância na mísera casa dos pais, Visarion e Ekaterina, ambos pertencentes a uma família de camponeses pobres que até 1860 foram servos da gleba. As  dificuldades econômicas são exacerbadas pelo temperamento colérico do pai de Soso (nome pelo qual o menino é chamado na intimidade pelos pais e  amigos), que tentou em vão fazer fortuna trabalhando por conta própria como sapateiro, e que busca consolo na vodka, maltratando e espancando a mulher até se cansar e voltar para a capital, onde acabará encontrando ocasionalmente a morte em uma briga de bar.

Não se pode ter certeza de que o sapateiro de Gori fosse realmente o pai de Soso. Segundo uma lenda, talvez alimentada por aduladores, sua mãe — “uma moça de cabelos ruivos, rosto aberto, liso e tranquilizador, que enrubescia facilmente” — pode ter sido seduzida por alguns dos senhores a  cujo serviço estava para ganhar a vida. São citados neste sentido dois nomes: o do célebre explorador russo Prezvalski, com  quem  Stalin se assemelha surpreendentemente,  e também o do Conde Egnatosvili, junto a quem Ekaterina tinha  servido como ama de leite para o recém-nascido que a condessa  não podia  amamentar. E, ao que parece, os Egnatosvili teriam cuidado carinhosamente do rapaz, a ponto de patrocinar sua admissão na escola paroquial de Gori e depois no seminário de Tiflis.





Mas Ekaterina não é apenas uma mulher atraente e corajosa, é também perspicaz o suficiente para intuir os dotes particulares do filho, com o qual terá sempre uma relação muito estreita, como demonstram duas histórias, uma relacionada com a infância de Soso e outra com a maturidade de  Stalin.  O  pequeno Iosif assiste tremendo aos furores de ira e brutalidade com que Visarion  os atormenta, e um dia em que o beberrão havia passado da conta, para defender   a mãe, atira nele uma faca, fazendo com que ele ficasse tão fora de si que foi necessário manter o menino escondido dele por alguns dias em casa de uma família amiga. Muitos anos depois, em uma das raríssimas vezes em que Ekaterina, agora já idosa, foi ao Kremlin para encontrar-se  com  o  chefe  da União Soviética, teria com ele uma conversa  da  qual  transpirou  esta  troca  de ditos espirituosos: “Mas, afinal, que espécie de trabalho você faz?”, perguntou a senhora. E Stalin buscou uma referência que a velha camponesa pudesse compreender: “Você não se lembra, mamãe, de nosso czar?”

Ekaterina assente: “Claro que sim.” E o filho, um pouco para simplificar, um pouco porque era verdade: “É isso, eu sou uma espécie de czar.” Se acreditava, porém,  que  conseguiria  deixar  a  mãe  encantada,  enganava-se redondamente, porque Ekaterina encolhe os ombros e diz: “Bah! No final das contas era melhor que você tivesse virado padre.”

De fato, leva à estola de pope a estrada que lhe foi aberta, talvez com a ajuda dos Egnatosvili, fazendo-o entrar primeiro para a escola paroquial de Gori  e depois, com uma pequena bolsa de estudos, para o seminário de  Tiflis.

Mas o menino tem um temperamento rebelde, que não coaduna com a disciplina e a sufocante atmosfera sacerdotal do internato, do qual no máximo irá assimilar as lições de suspeita e delação que o acompanharão por toda a vida, juntamente com o estilo característico e pedagógico que dará à sua monótona oratória. Quanto ao resto, o comportamento indócil e o gosto pelas leituras severamente proibidas por aqueles bons padres logo suscitam  sua  indignação e  um rigor crescentes que acabariam por endurecer posteriormente o rapaz, acentuando sua tendência ao isolamento e à desconfiança. E, como só acontece com adolescentes introvertidos, o impiedoso realista em que Stalin irá se transformar vive aqueles anos acalentando em compensação sonhos de glória, de grandeza, de heroísmo. Entre os livros que mais o impressionam destaca-se um romance georgiano, O Parricida, no qual se fala da guerra travada séculos antes contra os invasores russos pelos montanheses do Cáucaso, liderados por um bandido justiceiro, Koba, o Indomável. Quando Soso  torna-se  um  revolucionário  e entra para a clandestinidade para escapar à polícia czarista, é exatamente Koba   o nome de guerra que assume, em 1901, mantendo-o durante dez anos, até vir a escolher, como bolchevique, aquele que deveria se tornar célebre em todo  o mundo.

Enquanto ainda estava no seminário, Soso começa a frequentar na cidade um círculo progressista em que se discutem as ideias novas de Marx, de Comte e de Darwin, em chocante contraste com a educação mística e retrógrada que predominava no seminário — como, aliás, em todas as escolas russas da época. Em 1896 ele funda, juntamente com outros estudantes, um círculo clandestino de jovens socialistas. Três anos depois, ao chegar ao último ano do curso, assume cada vez mais uma atitude de provocação nos confrontos com os professores, manifestando aquela rudeza e aquela insolência mesclada de desprezo que muito mais tarde lhe serão censuradas, inclusive por Lenin. Deveria fazer os exames finais para poder inscrever-se na universidade, mas, por  mais que  a  mãe lhe  peça para não fazer isto, decide irrevogavelmente abandonar o curso ou (isto não fica bem claro) fazer-se expulsar, com uma obstinação que  vai se  mostrar  um traço fundamental de seu caráter. No momento em que deixa o internato,  já perdeu completamente a fé, mas, ao mesmo tempo, talvez sem dar-se conta, já absorveu os defeitos típicos daquele ambiente, sobretudo a tendência a dissimular   o próprio pensamento e a nutrir um pessimismo de  fundo  sobre  o  gênero humano, aprofundado ainda por um rancoroso complexo de inferioridade nas confrontações com  os próprios companheiros quando são, por acaso, mais  cultos ou brilhantes que ele ou pertencem a uma camada social  privilegiada.

A partir daquela época, Soso, já com o cognome de Koba,  é  um revolucionário em tempo integral. Trabalha à luz do sol ou de forma clandestina, faz propaganda, organiza protestos operários nas fábricas e nas praças, até que enfrenta a primeira detenção, que o leva à prisão e depois, por três anos, ao exílio na Sibéria. Aí mostra-se duro, incansável e autoritário e adquire grande prestígio entre os companheiros, sobretudo devido à determinação com que cerra fileiras em torno das posições intransigentes da facção dirigida por Lenin  e  que  se  tornará a plataforma do futuro partido comunista bolchevique, hostil a toda e qualquer forma de gradação ou de  reformismo.

Poucos meses depois do encontro com Lenin na Finlândia, Koba  desposa  a irmã de um companheiro de seminário, Ekaterina Seminovna Svanidze: é o segundo encontro mais importante de sua vida. Ekaterina é uma mulher “forte e bonita, com grandes olhos negros, cabelos luzidios e espessos, presos em coque”, por quem Koba se apaixona em 1904 e com quem se casa dois anos depois em uma igreja de Tiflis, diante de um sacerdote amigo que conhecera também no seminário. O rude bolchevique aceita um casamento religioso  por  amor  a Ekaterina e a sua família, e esta o recompensa com a admiração e a devoção de todas as mulheres camponesas, desejando em seu íntimo que Koba queira renunciar a sua vida aventurosa de revolucionário para dedicar-se  a  uma existência tranquila ao lado dela. O casamento é feliz, ainda mais quando, em setembro de 1907, a mulher dá à luz um menininho, que será batizado de Jakov. Pouco mais de um ano depois, no entanto, um ataque de tifo leva embora Ekaterina, levando Koba ao desespero. Aniquilado pela dor, confidencia a  um amigo diante do caixão da esposa: “Esta criatura conseguiu enternecer meu coração de pedra. Agora que morreu, morrem também com ela os meus últimos sentimentos de amor ao próximo”.

Quatro anos depois, ao ser novamente condenado à deportação para a Sibéria, aí conhece Maria Kuzakova, uma viúva com cinco filhos, em casa da qual aluga um quarto. A mulher se afeiçoa a ele, treme com a possibilidade de  ele  vir  a  fugir e, ao fugir, acabar se afogando no rio e, em 1912, lhe dá um filho, Konstantin, tão parecido com Koba que todos logo compreendem quem é o  pai.

Discreto e reservado, o rapaz crescerá bem, estudará com grande proveito e terminará até sendo professor universitário. E quando, em 1947, cai em desgraça devido a uma intriga de Beria, vendo-se expulso do partido e da cátedra, salvar- se-á da Lubianka somente devido a uma anotação do pai a pedido do homem da NKVD: “Não vejo motivo algum para a prisão de Kuzakov” (seu sobrenome materno). Entre pai e filho, porém, jamais houve um diálogo cara a cara, e, logo depois, Konstantin confessará que Stalin sempre lhe pareceu “um homem muito fechado e desprovido de sentimentos  humanos”.

Na realidade, uma vez sepultada Ekaterina, para o georgiano passou a existir apenas a luta pelo poder absoluto no partido, que terá um primeiro salto de qualidade em 1912, um ano particularmente feliz para ele. Ao escapar pela milésima vez da Sibéria, é cooptado para a cúpula de São  Petersburgo,  por  vontade de Lenin, que apreciara os seus relatórios sobre a conjuntura russa recebidos enquanto estava no exílio em Paris. No encontro seguinte, na Cracóvia, confia-lhe a redação de um  ensaio sobre um  importante problema para a Rússia,  o dos limites que um movimento revolucionário pode  ser obrigado a  estabelecer ao princípio da autodeterminação dos povos. E é exatamente na cidade polonesa que o georgiano decide adotar seu nome de guerra definitivo, Stalin, o homem de aço, antes de partir, por sua vez, para Viena, onde encontrará Trotski e conhecerá Bukarin, estreitando momentaneamente uma forte amizade com o segundo e reforçando, ao contrário, sua irredutível antipatia por Lev Davidovic [Trotski], cuja brilhante dialética e narcisismo o exasperam. Marxismo  e  Questões Nacionais, o ensaio que lhe foi pedido, mostra-se de certo modo modesto sob o ponto de vista científico, mas é recebido com agrado por  Lenin,  que  em  uma carta a Máximo Gorki define o autor como “um georgiano prodigioso que honra a literatura teórica marxista”. O ano seguinte já é bem menos feliz. Stalin está assistindo a uma soirée musical organizada para financiar o  Pravda,  o  órgão oficial do partido, quando a polícia irrompe na sala. Alguém ainda tenta salvá-lo, jogando sobre ele um casaco de mulher, mas é inútil. Permanecerá no exílio, em uma localidade a apenas cem quilômetros de  distância  do Círculo Polar  Ártico, por cerca de quatro anos, vivendo um período de miséria, de fome, de  aviltamento, no qual sobreviverá exclusivamente graças à caridade dos companheiros que continuaram livres, amadurecendo na enregelante solidão da paisagem siberiana um ódio selvagem a tudo e a todos e encontrando algum conforto apenas nos pouquíssimos livros que consegue encontrar, entre os quais estaria, ao que parece, O Príncipe, de Maquiavel.

Terá de esperar iniciar-se o ano de 1917, quando estoura a revolução democrático-burguesa de fevereiro, para voltar a Petrogrado (ora São Petersburgo), onde, porém, vai entrar de imediato no grupo dirigente do movimento, embora não só Trotski, como outros companheiros de  prestígio, como Zinoviev e a Kollontai, ainda o considerem “uma figura apagada”, até pelo fato de nos primeiros meses ficarem a  seu cargo tarefas modestas no partido e  na direção do Pravda. Mas quando, em abril, Lenin chega à estação de  Petrogrado — depois de ter partido de Zurique e de ter atravessado a  Alemanha com o famoso trem “blindado” —, Stalin, sem hesitar, cerra fileiras com ele  e  com suas discutidas “teses” para a conquista violenta do poder.

Embora tendo ficado até certo ponto à margem nos “dez dias que revolucionaram o mundo”, no momento decisivo da capitulação do governo Kerenski figura entre os quinze  ministros, os “comissários do povo”, como  foram batizados pelo vodz (ou seja, o líder) e não só com  a  delegação  por nacionalidades, como também com encargos formalmente menores, que na realidade lhe permitirão ir assumindo o controle do aparelho estatal, setor para o qual olha com  clarividente interesse. Neste  momento o partido já havia  mudado de  nome, para Partido Comunista

(b) Russo, no qual o b entre parênteses significa “bolchevique”, e fora levado ao governo sobre as asas das “teses de abril” leninistas: todo o poder aos soviets (os conselhos de soldados e de operários), terra para os camponeses, paz imediata e incondicional com a Alemanha. Stalin, que em fins de agosto votara com a esmagadora maioria em favor da revolta armada, já adquirira a este tempo uma tal autoridade que pôde intervir com sucesso a favor de Zinoviev e Kamenev, ameaçados de serem expulsos do partido por terem se oposto à revolta insurrecional.

A participação na guerra civil contra os exércitos brancos na qualidade de comissário político na zona de Caricy n — a cidade que será rebatizada em  sua honra durante a Segunda Guerra Mundial como Stalingrado — o consagra definitivamente aos olhos de Lenin, inclusive pela desapiedada energia com que chefia as operações. Distinguido, no inverno de 1919, com a condecoração máxima do novo regime, a Ordem da  Bandeira  Vermelha, volta  a  mobilizar-se na primavera seguinte após o ataque desfechado pelo exército polonês do Presidente Pilsudski, no decurso de uma campanha em que entra  em  rota  de colisão com o General Tuchacevski, em um encontro que se mostrará fatal para este brilhante dirigente.

O testamento sepultado

Desfeita a ameaça polonesa, os bolcheviques se dedicam a liquidar as últimas ilhas de resistência na periferia. Stalin participa do empreendimento, primeiro no Azerbaidjão, onde exalta as conquistas do partido “compacto como o aço”,  e depois na sua Geórgia, onde, juntamente com seu velho amigo Grigori Ordzonikidze, “normaliza” a situação de forma tão brutal que lhe  vale  a reprovação até dos comunistas locais. De qualquer modo, o regime pode assim consolidar o triunfo da revolução até nas províncias mais longínquas do que seria em breve a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, e seus dirigentes podem finalmente dedicar alguns fugidios parênteses a sua vida pessoal. Antes da guerra civil, Iosif tinha ficado hospedado em Petrogrado, em casa de seus velhos  amigos Alliluev, cujo chefe de família, Sergei, é um velho bolchevique de fé sólida, ao passo que a filha de dezesseis anos, Nádia, chamada de Nadezda, já havia demonstrado no passado ter uma queda pelo georgiano que lhe havia salvado a  vida, quando, três anos antes, havia escorregado, caindo na água,  e  estando  prestes a afogar-se no rio. A jovem tem sido descrita como um tipo de beleza tipicamente meridional, com alguns traços ciganos devidos à avó: linhas bem desenhadas, rosto oval ligeiramente alongado, perfil de camafeu, olhos escuros tornados mais profundos pelos longos cílios postos em evidência pelos cabelos negros, pesados e lisos, recolhidos em um coque atrás da nuca. É uma mulher determinada e inteligente, uma revolucionária convicta, até por influência do ambiente familiar, embora, como todos os Alliluev, esteja ameaçada de uma latente tendência à  esquizofrenia.

Svetlana, a sua segunda filha, irá compará-la a “uma pequena barca acoplada     a um enorme transatlântico”, que seria Stalin, mas, na realidade, de início trata-se de uma história verdadeiramente romântica: a menina se apaixona perdidamente pelo agitador quarentão e acaba por conquistá-lo, até mesmo porque durante o tempo em que Iosif viveu em casa dos seus manteve com ela e com  Anna, sua irmã, serões bastante prazerosos, lendo em voz alta  trechos de  Tchecov e  Gorki, ou versos de Puskin. A amizade com os Alliluev se sedimenta definitivamente quando Lenin, procurado pela polícia do governo provisório menchevique, se refugia também em casa dos Alliluev, para depois tornar a  partir  para  a Finlândia, não sem antes se tornar irreconhecível, fazendo  com  que  Stalin, barbeiro improvisado, lhe rape a barbicha e o  bigode.

Ao estourar a guerra civil, o governo vermelho já mudara a capital, de Petrogrado para Moscou, onde Iosif instalara o Comissariado para a  Nacionalidade, tomando, em 1918, a Nadezda como secretária.  É  neste momento que os dois vencem suas últimas hesitações e se juntam, sem cerimônias ou festas nupciais, instalando-se em um pequeno  aposento  no Kremlin. A moça acompanhara Stalin em todos os seus deslocamentos nas várias frentes de guerra contra os exércitos brancos, mas, ao retornar a Moscou, vem já nomeada secretária do governo, mergulhando com tanto zelo no trabalho dos comissários do povo que um dia confidencia a uma  amiga, secretária  do vodz, uma novidade incrível: como bom georgiano, Soso lhe censurara por não estar dedicando a ele bastante tempo e pretende que ela pare  de  trabalhar.  Quando Lenin vem a saber disto, entre divertido e escandalizado, irá repreender Stalin por ser “um asiático” e o forçará a deixar Nadezda livre. O casal tem  um  primeiro filho em março de 1921, um garoto que terá o nome de Vasili e ao qual a mulher   se dedica quase totalmente, a ponto de ser suspensa do partido e ameaçada até de licenciamento. É mais uma vez Lenin quem a salva, embora só venha a voltar ao partido três anos depois. Neste  ponto o parêntese  doméstico se  fecha  porque  a  revolução bolchevique está passando por uma fase dramática e chega a ver-se arriscada à catástrofe, dadas as desastrosas consequências econômicas do chamado “comunismo de guerra”. É exatamente nesta fase que Dzugasvili faz valer, primeiramente junto a Lenin e depois contra ele, as próprias qualidades de determinação, de concretude    e de inoxidável capacidade de trabalho, mascaradas com  a  ostentada  modéstia com que aceita a cinzenta rotina cotidiana, e em contraste com as ambições intelectuais e o incorrigível narcisismo de Trotski e de outros intelectuais do Politburo, bastante satisfeitos de poderem descarregar o peso das incumbências organizativas sobre um personagem que consideram “um provinciano de mentalidade medíocre”.

Alarmado com as condições desesperadoras do país, na primavera de 1921 Lenin lança o temerário desafio da NEP, a Nova Política  Econômica,  que  assinala uma guinada liberalista prevendo concessões significativas, ainda que momentâneas, tanto para os camponeses quanto para os comerciantes e as pequenas empresas. O êxito da virada é positivo. Stalin o secundara  sem hesitações, afirmando com certa desenvoltura que ela estimularia a energia produtiva dos trabalhadores e marcaria um passo à frente  no  sentido  da  realização do socialismo. Apoiar assim, quase  incondicionalmente,  o  vodz significa, obviamente, candidatar-se a ser seu herdeiro, e que isto tenha sido realmente calculado os acontecimentos irão em breve demonstrar. De fato, neste mesmo período o protagonista da  Revolução de  Outubro começa a  apresentar  um estado de progressivo desgaste  físico, de  nervosismo, de  irritabilidade, como se estivesse descarregando de repente sobre o próprio organismo  a  tremenda tensão dos últimos tempos. O primeiro sintoma aparecerá em maio de 1922, um mês depois de Lenin ter apoiado com todo o peso de sua autoridade, no encerramento do XI congresso do partido, a eleição de Stalin para  secretário- geral.

O cargo, em si, se reveste de um caráter puramente  administrativo, mas, a partir da data de sua nomeação, a 3 de abril de 1922, o interessado tomará providências no sentido de conferir-lhe toda a importância política que não tivera no passado. No congresso, Stalin não só renuncia a falar, como se mantém ostensivamente afastado das polêmicas que, pela última vez, movimentarão um congresso bolchevique de maneira tão viva que  chega a  irritar  Lenin, em  quem um crescente cansaço em relação ao dissenso se traduz em uma frase que lhe escapa naquelas circunstâncias: “É preciso reprimir, sufocar, fuzilar.” Stalin é a última pessoa no mundo que poderia chamar a atenção para  o  seu  erro, e, de agora em diante, terá sucessivas ocasiões de demonstrar isto, visto que já havia posto os pés tanto no Politburo quanto na organização, duas poderosíssimas alavancas do partido, e pode, assim, estender gradualmente a própria influência sobre os aparelhos e as instituições da recém-nascida União Soviética, cuja Constituição  seria  retificada  durante  o  II  Congresso  dos  Sovietes,  em  31   de janeiro de 1924. Mas ele teve também um embate com o próprio Lenin a  propósito da autonomia da Geórgia, solicitada pelos comunistas  locais  e impugnada por seu antigo companheiro, que teria preferido a criação de  uma única entidade com  as três Repúblicas caucásicas.

No caso em questão, ele terminou cedendo, mas suas relações com o periclitante vodz não serão mais as mesmas.

Nas cartas aos amigos mais fiéis, ele descreve abertamente “o velho”

como alguém ultrapassado, que deve ser o mais breve possível aposentado. E Lenin intui isto. Nos dois anos que se seguiram, vive profundamente o seu drama: a consciência de seu crescente isolamento e a suspeita de que os companheiros queiram relegá-lo a uma função já meramente decorativa o induzem a lançar-se  na peleja. Compreende que o esboço desta  marginalização  se  deve principalmente a Stalin, cuja verdadeira natureza começa agora a conhecer, mas não tem mais forças para empunhar o timão,  ainda  que,  nos últimos meses do ano, tente incansavelmente fazer sentir a própria presença, escrevendo artigos, emitindo diretivas, buscando, sem encontrar, um ponto  de  referência  no Politburo. Não só Zinoviev e Kamenev, como também Bukarin já fazem causa comum com Stalin ou, melhor, cada um deles se propõe intimamente a servir-se dele em função da conquista do poder, com  a ilusão de depois deixá-lo de lado; e   o próprio Trotski, o brilhante líder do Exército Vermelho de outros tempos, não se sente com coragem de alinhar-se abertamente contra seu mortal inimigo, subestima-o e, com  fatal hesitação, desiste de confrontar-se com   ele.

Avizinha-se, no entanto, o desfecho da tragédia. Embora, entre 13 e 16 de dezembro de 1922, aniquilado pelo cansaço e pela desilusão, Lenin seja agredido por outros dois ataques apopléticos que o reduzem a uma situação difícil, os três aspirantes a ditadores decidem ser  melhor deixar  exatamente  a  Stalin  o encargo de seguir de perto a sua lenta agonia, na esperança de torná-lo mais malvisto aos olhos do partido e do próprio vodz. Com um incrível esforço de vontade, Lenin consegue, mais uma vez, recuperar, ao menos em parte, suas forças e tem ainda suficiente lucidez para, nos últimos dias do ano, ditar à  sua  secretária  aquela “Carta ao Congresso”, que passará à história como seu “testamento” e no qual desabafará todo o desprezo que viera amadurecendo com relação a Stalin, juntamente com o amargo remorso de tê-lo  designado  para  uma responsabilidade tão elevada. Nesta carta, depois de ter sugerido que fosse aumentado o número de membros do Comitê Central, incluindo quadros  de origem operária, passa a tratar da questão dos contrastes na  cúpula  do partido.  Não poupa críticas pungentes a Trotski, a Zinoviev e aos outros expoentes  do bureau político, mas é a Iosif Dzugasvili que reserva o juízo mais impiedoso, ao comentar que “o companheiro Stalin, ao tornar-se secretário-geral, acumulou em suas mãos um  enorme poder”, acrescentando que  não se  pode  crer que  o esteja “à altura de dele fazer uso com a necessária   prudência”.

É uma iniciativa explosiva e ao mesmo tempo reticente, no momento em que, na prática, Lenin está renunciando a intervir publicamente para esconjurar as consequências desta insuficiente “prudência” do secretário-geral, limitando-se a mandar redigir cópias idênticas desse texto com  a advertência de que se trata de  um documento confidencial, a que só podem  ter acesso ele  próprio e, depois de sua morte, sua mulher, Nadezda Krupskaia. Stalin, como todos os demais membros do Politburo, é informado a respeito pela própria secretária de Lenin e, embora o documento só venha a ser lido no decurso do XIII Congresso do PCUS, realizado em maio de 1924, se dá conta de sua obscura ameaça. Aliás, poucas semanas antes tinha tido um duríssimo choque com a mulher de Lenin, repreendendo-a por ter deixado o doente escrever cartas  e  agitar-se,  contrariando o parecer dos médicos, e ameaçando por isso  denunciá-la  ao Comitê Central. Lenin ouve o desabafo da mulher, furiosa com o ultraje, e endereça ao secretário-geral uma carta violenta, em que escreve, entre outras coisas: “Prezado companheiro Stalin, você teve a ousadia de telefonar à minha mulher a fim de ofendê-la… Não pretendo esquecer o que foi feito contra mim, porque é evidente que o que se faz contra minha mulher se faz também contra mim. Devo perguntar-lhe, portanto, se está ou não disposto a retirar as suas afirmações e a desculpar-se ou se prefere romper toda e qualquer relação comigo.” O georgiano põe a carapuça e se desculpa, mas o tom com que o faz é quase insolente: “Não creio ter dito nada de brutal ou de intolerável, ou contra o senhor, porque não desejo mais que vê-lo  curado…

Mas, se julga que para manter as nossas relações eu tenha de retirar o que  disse, eu retiro, embora continue não entendendo onde está o problema, em que consiste a minha culpa e o que se censura em mim.” Ele não sabe ainda que à “Carta do Congresso” o vodz acrescentou um comentário fatal: “Stalin é excessivamente grosseiro, e este defeito, se tolerável nas relações entre comunistas, torna-se intolerável em um homem que ocupa o cargo de secretário- geral”, de modo que os companheiros devem encontrar um meio de  substituí-lo por uma personagem “mais tolerante, mais leal e respeitadora, menos caprichosa”.

Apesar de algumas fases de ligeira recuperação, Lenin não mais ficará  curado, e a 21 de janeiro de 1924 fechará para sempre os olhos, talvez sem nem imaginar as consequências que a  escolha  do secretário-geral terá  para  o futuro  do partido, da Revolução e da União Soviética. Só para começar, a partir do XII congresso, que se realizou na primavera de 1923, Dzugasvili consegue passe livre para uma medida policial sem precedentes na história do movimento operário: a autorização para mandar prender os expoentes da oposição e instalar inquéritos contra os comunistas que não denunciassem  supostas  atividades  subversivas  contra  o partido. Uma praxe que, nos trinta  anos que  se  seguiriam, tornar-se-ia o esporte preferido de Stalin. A sua posição não  será  substancialmente  enfraquecida nem mesmo pela decisão de  Krupskaia  de  levar  ao conhecimento do Comitê Central, poucos dias antes da abertura do XIII congresso do partido, a famosa pró-memória de Lenin sobre os defeitos do georgiano e sobre a oportunidade de substituí-lo por um companheiro menos  violento.  Stalin  se apressa a apresentar a própria demissão, com plena consciência de que a perturbação pelo desaparecimento do Pai da Revolução induzirá até mesmo Trotski a rejeitar suas acusações.

Apesar disto, é exatamente contra Lev Davidovic [Trotski] que o secretário- geral desferirá um ataque sem precedentes, listando ponto por  ponto  seus supostos erros e dando, mais uma vez, uma guinada memorável, porque em sua intervenção emergem pela primeira vez dois tipos de técnica inquisitorial de que    a promotoria pública  se  servirá  amplamente nos processos instalados na  década de 1930: a incriminação por analogia, como a definiu um grande historiador americano, no sentido de que se acusa alguém de  ter  repetido aquilo que  já foi dito por outro, espião ou agente do inimigo de  classe, comprovando a  existência de uma ligação de cumplicidade entre ambos; e a evolução de culpas pregressas, expediente que se baseia em uma hábil junção de citações e de  dossier policialesco. O Congresso não hesita um minuto sequer e condena  por  divisionismo tanto Trotski quanto os 46 companheiros que subscreveram um vibrante protesto contra os métodos despóticos de Stalin.

O czar vermelho

O desaparecimento de Lenin abre definitivamente ao secretário-geral a via do poder absoluto, que ele irá obter gradativamente no decurso de poucos anos, mirando, por um lado, o controle total do partido por meio da eliminação sistemática de seus prováveis ou presumíveis concorrentes e,  por  outro, liquidando todos os grupos sociais e étnicos, todas as manifestações de pensamento científico, da cultura e da arte que considere um obstáculo à construção da sociedade ideal, uma comunidade de chumbo, de  caráter totalitário, da qual deverá germinar o novo homem soviético. Seu despotismo faz dele uma espécie de czar vermelho, seguindo o modelo dos grandes protagonistas da história nacional: Ivan, chamado O Terrível, pelo terror por ele implantado depois de ter adotado pela primeira vez, na metade   do século 16, o título de czar, e Pedro, cognominado O Grande, pelo processo de modernização forçada, adotado ao voltar de uma viagem de trabalho e de estudos ao Ocidente, em   1697.

A longa marcha de Stalin no sentido do controle absoluto do regime se conclui entre 1925 e 1928: mumificado Lenin e encaminhados os concorrentes mais perigosos para a beira do precipício, organiza a trama de seu poder partindo da secretaria, que será estruturada como um partido dentro do partido e acabará se tornando um  projeto exemplar, com  base no qual os partidos comunistas de todo  o mundo modelarão no futuro os seus aparelhos: organização,  propaganda,  cultura, administração e até mesmo um serviço secreto. É uma estrutura que possibilita a Dzugasvili tecer a rede em que serão “enredados” um a um todos os seus possíveis rivais, e a prescindir da esmagadora maioria de que dispõe no Politburo e no próprio Comitê Central.

Seus adversários permanecem emaranhados na rede, sobretudo porque o georgiano contrapõe à sua brilhante inteligência um tosco bom-senso camponês e um planejamento minucioso que transforma o vivíssimo partido de Lenin em um gigantesco dinossauro burocrático, que deve se assemelhar  a  ele  e  a  ele  obedecer. As teses em torno das quais, na época da Segunda Internacional e nos primeiros anos da Revolução, se acendiam calorosos debates vão se apagando na memória dos velhos bolcheviques, reduzidas, como o foram por Stalin, a uma mecânica repetição de slogans, martelados como artigos de fé.

À medida que tal projeto vai se realizando, o secretário-geral vai amadurecendo uma paranoica exaltação do próprio papel, que  se  traduz, para   o partido, o povo soviético e o movimento comunista mundial em um culto a sua personalidade, no qual se vê refletida a mensagem do seminário de  Tiflis.

O quanto esta imposição será partilhada  pelo  povo  russo  fica  demonstrado pela comovida reação ao processo de glorificação de Lenin, empreendido logo depois de sua morte e culminando com a exposição do corpo mumificado no mausoléu da Praça Vermelha — uma ideia de sabor medieval, porém que só escandaliza a viúva de Vladimir Ilich [Lenin], ainda ligada aos princípios do materialismo científico. Jamais condicionado por semelhantes ideias, Stalin pronuncia uma autêntica homilia, exaltando “a matéria especial” de que seriam feitos os comunistas e concluindo com um juramento solene ao defunto, de  cumprir “honrosamente” suas diretrizes.

Este componente místico pode, de certo modo, explicar o aspecto mais estupefaciente da história do comunismo: a disponibilidade do militante acusado pelos inquisidores stalinistas de crimes que nunca cometeu a  considerar-se culpado, a aceitar a prisão ou o gulag, e até a deixar-se fuzilar entoando louvores     a Stalin e ao partido. Voltaremos a este ponto. Seja como for, por mais que possa ter havido “pressões físicas”, ou seja, a tortura, e ameaças à liberdade e à sobrevivência dos parentes — e tratou-se, sem dúvida alguma, de uma parte importante destes —, o fenômeno se manifestou com uma frequência impressionante. É um ímpeto de fé que resolve também problemas ideológicos fundamentais. A partir do momento em  que, por  exemplo, na  situação mundial  do início da década de 1920, Stalin se convence de que o princípio  da  solidariedade internacional, embora basilar na  história  do movimento operário, ora está totalmente subordinado às exigências de desenvolvimento e de defesa da União Soviética e do PCUS, os partidos “irmãos” (salvo raríssimas exceções) aceitam disciplinadamente as teses do socialismo em um só país — inutilmente criticadas e ironizadas por Trotski —, resignando-se a se considerarem  subordinados à URSS, ao PUCS e, em última instância, ao próprio Stalin.

Sua solitária ascensão ao vértice é naturalmente agilizada pela habilidade com que superou o impasse do “testamento” de Lenin que Krupskaia, nem um pouco impressionada com a homilia fúnebre, pôs em pauta no  XIII  Congresso  do  PCUS, em maio de 1924. Além da fingida  demissão do secretário-geral, truque que repetiria nos anos seguintes, foram Zinoviev e Kamenev que fecharam  questão em torno dele, considerando-o irrefletidamente menos perigoso que  Trotski, então com grande popularidade como símbolo da ala revolucionária do movimento. Zinoviev subiu à tribuna para explicar como, por felicidade, os temores de Lenin não estavam se verificando: já que Stalin não se mostrava na realidade violento e, ao contrário, tinha aceitado com a maior modéstia  dividir  com ele e com  Kamenev as responsabilidades máximas do partido, ele  deveria por isso permanecer em seu posto. E quanto à embaraçosa pró-memória do defunto, decidiu-se  que  ela  não deveria  ser distribuída  a  todos os companheiros, mas apenas aos dirigentes das delegações congressuais — premissa indispensável para que Stalin pudesse ser confirmado no cargo, de que saberia servir-se  no  devido momento para livrar-se, antes de tudo, de todos aqueles ingênuos  que tinham tomado a sua defesa. Quando se deram conta do seu erro, os dois antigos amigos de Stalin se reaproximaram do ex-comissário da Guerra, mas Trotski não se mostrou mais hábil do que eles para pôr  em  dificuldades o  secretário-geral que, apoiado em uma sólida maioria de centro-direita, manobrou facilmente no sentido de neutralizá-los, contestando suas contradições, as intrigas e os contrastes recíprocos do passado, sua desmedida ambição e desencadeando  contra  eles  a sutil dialética de Bukarin e as insolências vulgares das assembleias.

No primeiro confronto mais duro é Kamenev quem inaugura o triste rito da autocrítica, que em breve viria a se tornar um dos instrumentos prediletos de domínio do secretário, segundo a tradição do grande romance russo à Ia Dostoievski ou, se preferirem, a tradição da liturgia clássica da Igreja.  A  admissão das próprias culpas, supostas ou reais, por parte do réu confesso  consegue, ao mesmo tempo, reunir mais de um objetivo:  a  humilhação infamante do arrependido, a premonição de seu aniquilamento e até mesmo medidas mais drásticas julgadas oportunas, sobretudo quando servem para descarregar sobre a vítima erros e disfunções do regime que, caso contrário, poderiam  ser postos na conta do próprio secretário-geral.

São as primeiras manifestações do delírio obsessivo de Iosif Visiarionovic Dzugasvili. Em 1928, para realizar a transformação da União Soviética em um colosso industrial capaz de enfrentar o desafio dos países  capitalistas  no brevíssimo tempo que sua impaciência lhe sugere, ele deslancha “uma guerra contra a nação”, que tem  como fundamento a imposição de sacrifícios humanos  às castas rurais: nominalmente, apenas aos kulaki, considerados, por definição, inimigos de classe, ou mesmo a personificação do mal na sociedade socialista; mas na prática, por meio da coletivização obrigatória das terras, a todos os camponeses.

A impeli-lo nessa direção intervém também o seu  mal-estar  com  as acusações que continuam a ser-lhe dirigidas por Trotski e pelos demais expoentes da esquerda revolucionária, segundo os quais o regime estaria representando o Termidor do Outubro Vermelho. Por isso, antes de desencadear a sua “guerra contra a nação”, o secretário-geral toma providências no sentido de desembaraçar-se dos companheiros que ainda lhe fazem sombra tanto à direita como à esquerda, jogando uns contra os outros, iludindo-os, enganando-os, aterrorizando-os. Entre o final de 1928 e o início de 1929, Bukarin e Rikov, Tomski  e Frumkin — um vice-ministro que ousou criticar o georgiano — são afastados de seus cargos com a acusação de divisionismo.

Quanto  a  Trotski,  cuja  linha  está  começando  a  pôr  em  prática,  Stalin    o marginaliza entre 1927 e 1929, primeiro relegando-o juntamente com seus mais fiéis colaboradores, para Alma Ata, distante localidade do  Cazaquistão,  nos  limites com a China, e obrigando-o, depois,  a  abandonar  a  própria  União Soviética para iniciar aquela vida errante e indômita que o levará, finalmente, ao México. Ali, onze anos depois, ele será massacrado a golpes de picareta por um sicário da NKVD, como o secretário-geral já decidiu desde 1939, convencido de que a eliminação “daquele despudorado charlatão menchevique” representará a derrocada de todo o movimento dos dissidentes.

Nesse período, embora empenhado na luta feroz pela conquista do poder, Iosif  é ainda um homem simples, que tem uma vida privada modesta e até certo ponto prazerosa, com uma única preocupação: uma saúde precária devido  aos póstumos males pulmonares e reumáticos adquiridos nos anos de clandestinidade, na prisão e nas seguidas deportações para a Sibéria, males de que cuida com frequentes estadias nas termas georgianas de  Soci, no Mar  Negro, ou alternando  o trabalho no Kremlin com o descanso na dacha [casa de campo] que fez ser-lhe destinada em Zubdovo, nos arredores de Moscou, e onde não deixa de hospedar amigos e parentes (até mesmo sua primeira mulher e o filho Jakov, que continua muito ligado a ele), para jogar bilhar com eles, cultivar a terra e  cuidar  dos bosques que circundam a mansão. É este  o melhor período de  seu casamento com Nádia Allilueva, que em fevereiro de 1926 lhe deu também uma filha, Svetlana, embora sua mulher seja demasiado inteligente e emancipada para resignar-se facilmente à mentalidade do marido e à sua pretensão de que  se dedique exclusivamente a ele e a sua família, como se usa na Geórgia.

É esta a única nuvem sobre seu casamento que  aninha, porém, em  seu seio uma terrível tempestade, porque Nadezda  cai de  vez em  quando em  uma  crise de nervos, como aconteceu pouco antes do nascimento de Vasili, quando desapareceu por dois meses, só voltando para casa depois de repetidos pedidos de Iosif, e como aconteceu subitamente depois do nascimento de Svetlana, quando pegou as duas crianças e levou-as para seus genitores em Leningrado (a  cidade  ora mudou novamente de nome). Pouco depois da segunda fuga, porém, vamos encontrá-la novamente junto ao marido, que escreve, como se nada tivesse acontecido, a sua sogra, agradecendo seus presentes de velha camponesa, especialmente as marmeladas pelas quais Soso “é louco”. Entre os dois existe, na realidade, uma relação bastante complicada, feita de amor e ciúme,  e  perturbada por um neurótico temor de se perderem que os leva a se torturarem: Stalin deve ir verificando que, no final das contas, é mais fácil conquistar  um império que governar os sentimentos e os impulsos de uma mulher em cujo sangue serpenteia a febre da loucura. Pois tanto sua mãe  quanto  Fedor,  seu  irmão, sofrem, de fato, de perturbações psíquicas que no jovem vêm a acentuar-  se devido a um trauma sofrido por ocasião da guerra  civil.

O extermínio dos kulaki

A “guerra civil” contra os camponeses ricos, os kulaki, se  enquadra  no contexto do primeiro plano quinquenal, que deve ser realizado, custe o que custar, até o final de 1932. Na liturgia soviética o plano se torna um totem ao qual não só os russos como todos os comunistas do planeta devem tributar preces e sacrifícios humanos: quem opuser qualquer obstáculo à sua realização, seja apenas do modo teórico ou do ponto de vista técnico, será considerado um sabotador, um traidor,  em suma, um inimigo do povo. O primeiro processo  do  gênero tem  lugar  em maio de 1928, contra um grupo de especialistas que, na bacia mineradora  de Sachty, não conseguiram evitar incidentes graves apenas porque as máquinas estavam desgastadas e as peças de substituição em falta. Emerge nesta ocasião o ex-menchevique Andrei Vishinski, que viria a revelar-se o mais implacável dos acusadores públicos à disposição de Stalin para as suas diabólicas maquinações.

O ponto de chegada deveria ser o desenvolvimento de uma indústria  forte, capaz de fazer frente à dos países capitalistas; mas, para chegar a este ponto, é indispensável contar com uma agricultura coletivizada: um círculo vicioso que o secretário-geral romperá brutalmente, provocando, no decurso de poucos meses, indescritíveis sofrimentos e consequências  catastróficas  para  o  mundo campesino, enquanto que a consecução dos objetivos industriais diluir-se-á no tempo. Em todos os casos, a rigidez a que tendem o plano  e  seu  inspirador acabará comprometendo irreparavelmente, a distância, não só o futuro da economia soviética, mas o próprio destino do comunismo. E não é apenas a necessidade de prover a uma acumulação de recursos para  financiar  o Grande Salto Adiante da indústria que suscita uma determinação tão impiedosa contra os camponeses. Marx já havia rotulado o trabalho deles de “idiota”, e Stalin está convencido, pelo menos tanto quanto ele, da superioridade política e moral das condições operárias e define, realmente, como “luta de classes no campo” o programa aprovado pelo Comitê Central, em certo dia de agosto de 1929, para realizar de maneira fulminante a coletivização de massa em  algumas regiões- piloto. Os camponeses considerados ricos são obrigados a ceder ao Estado cotas elevadíssimas de grão, e, se não atingirem o teto preestabelecido no gabinete dos burocratas do partido, serão punidos, na melhor das hipóteses, com  o recolhimento de sua safra, quando não até mesmo com o confisco de sua propriedade, a reclusão e a deportação. Terras e gado são expropriados em favor dos  kolkhoz,  isto  é,  de  fazendas  coletivas  que  representarão  depois  sedutores incentivos para os camponeses remediados e pobres a que deixem no abandono seus pequenos lotes de terra.

A pressa, a dureza, a fúria persecutória com que a operação é conduzida sob o controle do partido e da polícia política resultam  devastadores.

Na ocasião foram cerca de cinco milhões de  desventurados os destinados a ruína total, quando não à deportação ou ao pelotão de fuzilamento.

Conversando com Winston Churchill durante a guerra, Stalin falará  de  “uma luta espantosa”, que durou bem uns quatro anos, na qual foi preciso vencer a oposição de dez milhões de camponeses, mesmo quando afirme tranquilamente que os opositores teriam  sido eliminados “por seus dependentes”.

O que há de verdade em tais palavras é que o regime armou realmente os camponeses pobres contra os ricos, ajudando-os com ameaçadoras “brigadas de deskulakização” e inclusive alimentando sistematicamente a delação do filho  contra o pai, da mulher contra o marido, dos vizinhos contra os vizinhos. Por outro lado, uma vez estendida a toda a União Soviética a coletivização obrigatória, um decreto de 5 de janeiro de 1930 estabelece que os cultivadores deverão ser expropriados não só dos chamados meios de produção (máquinas, tratores, animais de tração e estrebarias), mas até mesmo das vacas leiteiras e das aves. É uma perseguição desatinada, que em certo momento desencadeia uma irrefreável onda de protestos, manifestações violentas, de episódios difusos de matança clandestina do gado e ocultamento das colheitas, e até de atentados terroristas contra os representantes do regime e uma torrente de cartas anônimas carregadas de insultos e de ameaças.

Stalin compreende, neste momento, que é indispensável uma intervenção de tendência pelo menos provisória, e ele próprio dita, em 2 de março,  para  o Pravda, um artigo, um verdadeiro recorde de despudor, porque proclama que a adesão aos kolkhoz é voluntária e não obrigatória,  e  ainda  que  excessos  e ameaças se devem aos dirigentes locais, que devem ter “perdido a cabeça”. Duas semanas depois, o Comitê Central se alinha prontamente na mesma direção do secretário-geral, contra o qual ninguém ousa  mais levantar  a  voz,  mesmo que seja facilmente possível entender que se trata apenas de uma trégua provisória e prever que, a um único aceno para uma saída em massa dos kolkhoz, a repressão tornará a desencadear-se mais ferozmente que  antes.

É um exército de coagidos o que será posto em marcha para realizar os objetivos indicados pelo secretário-geral. Tal como no partido, o mesmo se dá no campo ou na fábrica: não se opõe qualquer resistência mais significativa, porque   à resignação secular do povo russo nos confrontos com  o despotismo czarista ora  se acrescentam o medo da polícia política (chame-se ela CEKA, GPU  ou  NKVD) e a hipnótica sugestão da propaganda, na qual é mestre  o  secretário- geral,  astuto  manipulador  da  psicologia  popular.  Nesse  mesmo  tempo, quanto mais cresce a servil adesão a seu guia, mais se acende no tirano uma paranoica suspeita nos enfrentamentos com os  adversários  e, sobretudo,  paradoxalmente, em relação aos colaboradores mais fiéis, que exatamente pela posição  a  que foram elevados podem nutrir ambições criminosas. Os efeitos  de  semelhante modo de governar são explosivos. Ao final do primeiro plano quinquenal, o nível de vida dos russos piorou 30% e se os camponeses— que  representam  80%  da toda a  população — estão vivendo uma  tragédia  de  dimensões bíblicas também os habitantes da cidade estão sujeitos a pesadíssimas privações: escassez  de  víveres, falta de moradias, insustentável pressão nos horários  e  ritmos  de  trabalho.

Paga um preço excessivamente alto o próprio  Partido  Comunista,  que  somente no ano de 1930 vê expulsos de suas fileiras 130 mil inscritos, sob a acusação de não terem conduzido com energia suficiente a repressão no campo. Em setembro deste mesmo ano, a polícia política descobre no ramo da indústria alimentar uma gangue  de  sabotadores, condenando 46 deles à  pena  máxima, sob a acusação de terem boicotado o plano quinquenal por estarem a soldo das sociedades do Ocidente, que assim se tornam as únicas responsáveis pela penúria  de vida de que sofre o mercado russo. Estaria também a soldo de famosas personalidades estrangeiras, entre as quais até mesmo o próprio presidente da República francesa, Poincaré, um grupo de técnicos das indústrias estatais, cuja condenação à morte foi comutada em pesadas penas de detenção somente em consideração a sua especialização, que no futuro poderia  vir  a  mostrar-se  útil para a construção do socialismo, como efetivamente acontecerá  com  alguns deles. Esses odientos sabotadores estariam coligados, como se depreende de uma confissão sua (não exatamente espontânea), a uma organização contrarrevolucionária que apoia os kulaki e os renegados da “facção de direita”, alguns dos quais, ex-mencheviques, estão infiltrados inclusive nos escritórios organizadores do plano quinquenal.

Trata-se, em conjunto, de uma guinada radical em relação à orientação cautelosa e equilibrada que até 1928 havia caracterizado a estratégia de Stalin na chefia do partido e no exercício do poder, e é impossível dizer se este enrijecimento tenha sido sugerido por considerações ideológicas ou provocado, pelo menos em parte, pelas altercações familiares que começaram a aflorar justamente nesse momento, até desembocar, quatro anos depois, no misterioso suicídio da mulher. A distância entre os cônjuges se amplia, provavelmente, com  a decisão de Nádia de inscrever-se na universidade, uma escolha que nela nasce claramente do desejo de conquistar para si um espaço de autonomia em relação ao marido, e, em suma, também aos filhos, aos quais o crescente poder do secretário assegura uma educação de forma alguma proletária, uma vez que dispõem de uma governanta em casa, de uma “babá” e de um preceptor. Muitos anos mais tarde, a filha Svetlana descreverá a mãe como severa   ou, melhor, até mesmo implacável, ao passo que se lembrará de que o pai muitas vezes a  teve  nos braços, chamando-a de “meu passarinho” ou “minha cadelinha” e mil outros diminutivos carinhosos — uma terna interpretação do papel paterno que se empenha em atribuir a Iosif Visarionovic.

Antes de agravar-se o esgotamento nervoso de Nadezda, é o filho do primeiro casamento, Jasa, quem alarma e irrita o georgiano tentando o suicídio por amor a uma moça de Leningrado que o pai não lhe permite esposar: o jovem o fará por conta própria, mas finalmente reconciliar-se-á com o pai. As relações de Stalin com a mulher continuarão por ora discretas, mesmo que se multiplicando as manifestações de independência da jovem mulher, que frequenta personagens caídos em desgraça, como Bukarin, ou amigos de sua idade, como o responsável pelo partido na faculdade, um tal de Nikita Kruschev, que é apresentado  exatamente por ela ao secretário-geral.

No verão de 1930, Nádia tem uma crise de depressão e vai consultar um conhecido neurologista em Berlim, onde reside Pavel, seu irmão, para voltar a encontrar-se com Iosif, em Soci, e constatar, com  ele,  que  a  relação  não funciona mais. Com o tempo, a perturbação e  a  angústia  de  Nádia  aumentam, até seu dramático epílogo. A 8 de novembro de 1932, por ocasião do  décimo quinto aniversário da Revolução, os Vorosilov oferecem uma recepção aos expoentes mais ilustres da nomenklatura soviética, entre os quais, evidentemente, estão Stalin e Nádia, que na ceia se sentam um em frente ao outro. Em certo momento estoura o incidente em circunstâncias a respeito das  quais  existem muitas versões: não se sabe se por um acesso de ciúme da mulher, irritada com a conversa excessivamente calorosa do marido com  a  senhora  a  seu lado ou por um brusco conselho de Iosif a que beba alguma coisa, Nádia lança uma frase de desprezo ao secretário-geral que, como se estivessem a sós, a chama em voz alta de burra.

A humilhação faz soltar-se na mente da Allilueva a mola da loucura: ela  se ergue da mesa, sai acompanhada da mulher de Molotov, faz com ela um febril passeio pelos jardins do Kremlin, depois volta  para  casa, mas, evidentemente, sem conseguir conciliar o sono, se é verdade que à noite telefona seguidamente  para o marido, que se retirara furibundo para a casa de campo fora de Moscou e   se recusa a responder-lhe. É o golpe de   misericórdia.

Na manhã seguinte, a criada, ao forçar a porta fechada do quarto, a encontra, exangue, no leito, o travesseiro sobre a  cabeça, na  mão um  pequeno  revólver que, com  um  pretexto qualquer, havia pedido de presente a Pavel em  Berlim.

Deixa duas cartas, uma aos filhos, outra para Stalin, e desta última se dirá apenas que é “terrível, dura, insuportável”, embora seu conteúdo seja mantido como segredo de família, fazendo com que, em consequência, circulem em toda Moscou  os boatos mais disparatados,  inclusive,  naturalmente, o  de  um violento dissenso da mulher em relação à política do marido ou, em plano totalmente diferente, o de um amor incestuoso com Jasa, o enteado.  Os  boatos  se multiplicam, até porque a imprensa soviética fala do falecimento ocorrido sem fornecer mais detalhes. No funeral, Iosif demonstrará grande nervosismo e confidenciará a Eugênia Aleksandrovna, sua cunhada, ter perdido “a vontade de viver”, mesmo que, algum tempo depois, se lhe atribuam uma relação e até um filho com Rosa Kaganovic, aparentada com seu mais ignóbil companheiro; e, ao que parece certo, em seguida com Aleksandrovna, a  mulher de  Pavel Allilueva foi, pelo menos por uns dez anos, a amiga mais fiel e a amante de um Stalin cada vez mais solitário e endurecido pela solidão. Esta relação, não importa sua natureza, estava destinada a terminar muito mal, porque Zenia  será  levada  à prisão em 1947.

De qualquer forma, o suicídio de Nádia  exacerbou os piores lados do caráter de Iosif Visarionovic, a sua tendência à cólera e à suspeição, à ferocidade, ao desprezo profundo pelos outros. De agora em diante afundará exclusivamente no abismo da mais cruenta batalha pelo poder absoluto e, insaciável de honras, de louvores e de adulações, pretenderá impor-se até no campo cultural, empenhando-se em uma campanha pelo alinhamento da arte e da filosofia aos ensinamentos do marxismo-leninismo, sistematizado e corrigido por ele próprio. Desde 1924 havia realizado uma série de conferências, depois recolhidas em um volume, Os Princípios do Leninismo. Agora se dedica a uma nova e mais detalhada história do PCUS, exaltando a própria modéstia  como  discípulo  de Lenin e denunciando os funestos desvios das frentes opostas, de Bukarin e Trotski. Recorre até mesmo a um édito do Comitê Central para lamentar os textos que difundem calúnias sobre a Rússia do passado, condenando-a em bloco, sem nem sequer valorizar as gloriosas lutas do movimento revolucionário, humilhando, assim, o “orgulho nacional” de um país que, segundo o secretário-geral, está atingindo e superando as grandes potências industriais do Ocidente capitalista.

Quando afirma que, uma vez construída a indústria e convertidos os camponeses ao socialismo, para ser  o primeiro no mundo falta  já muito pouco,  ou seja, apenas “aprender a tecnologia” e “assenhorear-se da ciência”, muitos russos se entregam ao entusiasmo, sem  refletir  sobre  o involuntário humorismo do conceito, tanto mais porque, na expectativa  de  conseguir  a  primazia  no planeta, a União Soviética se debate entre catástrofes e massacres. Em consequência da coletivização do campo entre 1932 e 1933 existe, na realidade, uma tremenda carestia em enormes regiões do país, sem que por isso o regime renuncie à arrecadação compulsória de cereais e à exportação do grão em troca  da valiosa moeda  estrangeira, lançando no desespero e  na  fome  outros milhões de camponeses, que se veem ainda por cima culpabilizados pelo desastre, como autores de furtos, abusos e irregularidades de todo gênero. Contra estes fantasmáticos  inimigos  do  povo  elabora-se  também  um   decreto  que  pune   a apropriação de bens do Estado e dos kolkhoz com a reclusão ou  trabalhos  forçados por pelo menos dez anos e, nos casos mais graves, com a  pena  de  morte. Sanções igualmente desproporcionadas são aplicadas a quem recusa deliberadamente entregar o grão aos depósitos nacionais.

Muitos dos objetivos econômicos fixados pelo plano quinquenal não são alcançados, mas Stalin conseguiu encaminhar à realização de um modelo sociopolítico no qual se identificará nos decênios seguintes o  chamado  “socialismo real”. No campo estava previsto que todos os camponeses trabalhassem nas fazendas coletivas no ano de 1937, dispondo para consumo pessoal de apenas uma vaca e de uma pequena parte da colheita, com permissão não-oficial de revender no mercado aquilo que sobrar. Nas fábricas, liquidada a utopia igualitária que o secretário-geral considera como um resíduo radical, se estabelece o princípio da retribuição calculada pelos títulos e pelo rendimento, enquanto alguns técnicos e o gerente garantem para si salários bastante elevados, uma autoridade absoluta sobre os operários e inúmeros privilégios. A prioridade dada à indústria pesada torna-se um dogma  absoluto.

Quanto aos intelectuais, aos jornalistas e aos artistas, a repressão da  liberdade de pensamento e de expressão é total, salvo na possibilidade de o ditador ter a benevolência, em raríssimos casos e sem outro critério a não ser o seu capricho pessoal, de aceitar alguma exceção.

Um pretexto para o terrorismo

A partir de 1934, a ferocidade de Stalin se transforma em um terrorismo sistemático. Arquivada a arrasadora experiência do primeiro plano quinquenal, a União Soviética poderia ainda respirar fundo: as relações entre os grupos sociais estão agora definidas, como queria Stalin, e na elaboração do segundo plano quinquenal ele parece disposto a qualquer concessão em termos de bem-estar individual a ponto de proclamar, com a habitual inclinação a uma espécie de humor negro, que “a vida agora está melhor, a vida tornou-se mais serena. E quando há alegria de viver se trabalha melhor”. Enquanto o mundo capitalista é fustigado pela grande depressão iniciada em 1929 em Wall Street e estendida a seguir ao outro lado do oceano, a propaganda soviética garante aos trabalhadores pleno emprego, uma existência rica de conquistas e de vitórias, um futuro grandioso. Também no plano da política externa a URSS começa a  movimentar-  se   como  uma  grande   potência,  renunciando  definitivamente   aos  projetos de revolução mundial e confrontando-se com extrema cautela  com  as  duas ameaças que se vão esboçando em suas fronteiras, o Japão, a Leste,  e  a Alemanha nazista, a Oeste. Renovam-se, assim, as ligações com os nacionalistas chineses, estabelecem-se acordos e tratados com as Repúblicas bálticas e a  Polônia, ergue-se o estandarte do pacifismo (que continuará sendo o slogan publicitário de todos os partidos comunistas do mundo, principalmente no período da guerra fria).

Ao encontrar em Maksim Litvinov um colaborador ideal por sua habilidade diplomática e talento flexível, Stalin procura “amigos no exterior” e não hesita em escolhê-los não só entre os países imperialistas, como a Grã-Bretanha e a França, mas até entre aqueles partidos socialistas e socialdemocratas da Europa que há alguns anos rotulava abertamente de “socialfascistas”. Obtendo o reconhecimento oficial do governo de Washington, o Kremlin dá em 1934 um passo decisivo, aceitando entrar como membro da Sociedade das Nações, que até então havia considerado como “a liga dos ladrões imperialistas”. Os dirigentes russos concordam com o secretário-geral, que considera preocupante a situação internacional, e exatamente por isso hesitam em realizar o projeto, que  muitos deles acariciam, de transferir Iosif Visarionovic para um  cargo menos cansativo   e mais honorífico, por estarem conscientes do mandato fiduciário que, apesar de tudo, o povo russo conferiu a seu tirano.

Para este, porém, a preocupação se transforma gradativamente em um pesadelo: o pesadelo da aproximação capitalista, do isolamento da  URSS  e,  dentro dela, de uma conspiração dos antigos quadros do partido e a seguir dos generais visando livrar-se dele. Não o dissuadem dessas angustiantes suspeitas os “louvores desmedidos” que lhe são tributados durante o XVII  congresso  do partido, convocado para janeiro do ano fatal de  1934; ao contrário, aquela  onda  de conformismo faz crescer sua mórbida desconfiança, ainda  mais pelo fato de ser informado de que alguns companheiros influentes, entre os quais o  velho amigo Ordzonikidze, vêm tentando envolver Kirov em uma intriga para afastá-lo  da secretaria. O jovem e já popularíssimo Kirov, que substituíra  Zinoviev  na chefia do partido em Leningrado, liquidando todos os seus seguidores, não  se  deixa enganar com o convite dos veteranos e se destaca, ao contrário, no  congresso com um sóbrio, mas muito eficaz elogio da relação com o georgiano. Mas é preciso mais que isso para dissipar as suspeitas de Stalin.

O episódio que desencadeia seu furor e que lhe serve como pretexto  para realizar o segundo tempo de sua irresistível ascensão é  exatamente o assassinato de Sergei Mironovic Kirov, o ai-jesus do partido: “um romance policial”- Depois do congresso, o secretário-geral o convida  a  transferir-se  para  Moscou, fazendo-o entrever a possibilidade de ser seu sucessor, mas concedendo-lhe algum tempo para recuperar-se de um leve achaque e arrumar suas coisas em Leningrado, cidade  que, aliás, ele  está  deixando de  má vontade. No verão, hospeda-o durante as férias, juntamente com Zdanov, em Soci, mandando-o a seguir para o Cazaquistão com uma breve missão, finda a qual o jovem dirigente  volta  com toda a tranquilidade para a  base.

Na tarde do dia primeiro de dezembro, porém, acontece o drama: Kirov está entrando em seu escritório na sede do partido, no Palácio Smolni, quando é fulminado com um tiro de pistola por um  tal de  Leonid Nikolaev, ex-funcionário que reentrara há pouco no partido de Leningrado, depois de ter sido dele expulso por ser um tanto desequilibrado e  que,  estranhamente, se  infiltrara  no  edifício sem ser detido por ninguém. O assassinato do jovem e popularíssimo dirigente causa enorme impressão e provoca em Stalin uma reação violentíssima. Antes mesmo de se precipitar com os seus mais fiéis colaboradores para Leningrado, onde agarrará do próprio punho o funcionário da polícia que vai recebê-lo na estação, firma um  decreto do comitê de saúde pública no qual autoriza a NKVD   a fuzilar imediatamente todos os condenados à morte por atividades contrarrevolucionárias, anula as práticas em curso para concessão de graça ou revisão de processos e acelera ao máximo os inquéritos sobre episódios reais ou presumidos de terrorismo. Com uma violação sem precedentes das mais elementares garantias jurídicas, o decreto dispõe que os motivos da  acusação sejam comunicados aos imputados somente na véspera do debate, tolhendo-lhes naquela sede a utilização de documentos de  defesa.

Precedido por Genrih Grigorevic  Jagoda, que empunha  melodramaticamente a pistola, urrando, como em um filme de gângsteres  americanos,  “De  costas contra a parede e mãos para o alto!”, o ditador  chega com  sua  comitiva  à  sala em que está sendo interrogado o autor do atentado e ouve que  este  deve  ter matado Kirov apenas para vingar-se não se sabe bem de que ultraje. Stalin não acredita realmente nele: em parte porque está inclinado a ver em toda  parte complôs e tramas; mas principalmente Porque decidira escolher a ocasião para livrar-se definitivamente dos opositores mais temíveis. De fato, logo no dia seguinte, o dia 27, Vishinski afirma que Nikolaev faz parte de um grupo terrorista, como sempre ligado a Zinoviev e como sempre financiado por Trotski. Três dias depois, chega a notícia de que todos os supostos terroristas, processados a portas fechadas, acabaram diante do pelotão de execução: mais um mês e Zinoviev e Kamenev se vêm acusados de cumplicidade moral no caso  do  atentado  do  jovem boss de Leningrado e são condenados respectivamente a  dez e  cinco anos de reclusão. Em sua época, Kruschev dará a entender vagamente que por trás do atentado a Kirov estava o próprio Stalin, que se servira de Jagoda  para  armar a mão de Nikolaev. De qualquer forma, o atentado a Kirov servirá ao secretário- geral também como pretexto para três grandes processos, com os  quais,  entre 1936 e 1938, irá se desembaraçar de boa parte dos veteranos sobreviventes da Revolução de Outubro.

O  progressivo  aproveitamento  do  episódio  de   Leningrado  encontrou   uma explicação mais articulada, ou menos ocasional, e em outros e melhores termos, na hipótese de que Stalin se tivesse dado conta de que  entre  os  membros  do Comitê Central e do Politburo vinha surgindo  uma  desconfiança  crescente  em seus confrontos. Desde 1932 ele havia contestado a existência de um bloco moderado na cúpula do partido (do qual Kirov teria sido membro), que havia punido de modo relativamente brando o “direitista” Riutin, acusado de ter feito circular entre os componentes do bureau político um documento de cerca de duzentas páginas centrado basicamente na proposta de afastar o georgiano da secretaria-geral. Mas a confirmação de seus temores tinha-lhe chegado um ano depois, em 1933, quando não havia conseguido condenar à pena capital Vladimir Smirnov e outros velhos bolcheviques, embora eles tivessem ido buscar até o testamento de Lenin para fundamentar a remoção de  Dzugasvili,  cujo  nervosismo é confirmado por um dado surpreendente: o de que, por  sua  ordem, nos dois anos anteriores mais de um milhão de  comunistas tinham  sido expulsos  do partido.

E como o próprio andamento do XVII congresso, realizado em  janeiro de 1934, confirmaria, apesar das declarações de lealdade, a tendência de inúmeros companheiros, inclusive Kirov, a uma recuperação do debate interno e das normas leninistas há muito deixadas de lado, Stalin poderia ter esboçado o projeto de criar no país um clima político de tal forma agitado que viesse a obrigar o Comitê Central e o Politburo a aceitarem a implantação de uma máquina terrorística, apoiada em duas pilastras: a GPU de Jagoda e de seus sucessores e a Procuradoria-Geral da URSS, cuja eficiência  é  garantida  por  Andrei Vishinski. Na prática, pelo famoso relatório secreto de Kruchev ficar-se-á sabendo que, no decurso de três anos, consuma-se uma verdadeira chacina dos  delegados  presentes naquele congresso — definido incautamente como o congresso “dos vencedores” exatamente porque em sua grande maioria eram veteranos do  partido, da Revolução e da guerra civil. Dos 139 eleitos no Comitê central, 98 foram presos e fuzilados; dos 1.966 delegados, 1.108 foram detidos, levados à prisão ou deportados: todos por supostos delitos contra o poder soviético.

Aos companheiros que acompanhavam estupefatos as revelações contidas no relatório, publicado em 4 de junho de 1956 no New York Times, Kruchev descrevera Stalin de maneira pitoresca: “Era um homem muito diferente, morbidamente desconfiado”, havia contado, sob um silêncio tumular, “o que viemos a conhecer trabalhando a seu lado. Era capaz de olhar fixo para alguém e perguntar: ‘Por que seu olhar está hoje fugidio?’ Ou então: ‘Por que hoje baixa os olhos e evita olhar-me de frente?”‘ E Nikita Sergeievic  acrescenta  que  o  georgiano via por toda parte espiões, inimigos, traidores. Em 1939, quando a avalanche das prisões em massa começou a diminuir e no partido começaram a aflorar os primeiros e tímidos protestos contra os métodos da  poderosíssima  polícia política, o secretário-geral forneceu sua explicação: no momento em  que os serviços de contraespionagem dos países capitalistas usam “de formas as mais escandalosas” métodos de pressão física sobre os representantes do proletariado, não via por que os dos soviéticos deveriam mostrar-se mais humanos em comparação com os “frenéticos” agentes da burguesia.  “Nosso  método”, concluíra angelicamente o ditador, “é ao mesmo tempo justificável e  adequado.”

E impossível estabelecer com exatidão o número de vítimas exterminadas por esse sistema “justificável e adequado”, entre prisioneiros deportados e  fuzilados  que Stalin e seus colaboradores sacrificaram entre 1936 e 1950, o período mais intenso da repressão. Além das condenações a pena capital, calcula-se que o número dos “inimigos do povo” mantidos anualmente nos campos de trabalho oscilasse, em média, de um mínimo de  seis a  um  máximo de  17 milhões, com um  índice médio de mortalidade entre 10 e  20%.

Se forem incluídas neste cálculo também as vítimas do período entre 1930 e 1936, chega-se a um total aproximativo de 20 milhões de indivíduos que  pereceram nas prisões ou nos gulags, de fome, doença ou violência por parte do Estado, muitas vezes complementada com o sadismo e a corrupção dos guardas carcerários em comum acordo com os detentos comuns. No devastador  ciclone dos “expurgos” stalinistas foram igualmente envolvidos dirigentes e militantes do PCUS e dos partidos “irmãos”, seus parentes e amigos, os ex-combatentes da guerra da Espanha e os ex-prisioneiros nos campos de concentração alemães da Segunda Guerra Mundial, os militantes envolvidos no processo Tuchacevski, de 1937, e os intelectuais perseguidos antes e depois da invasão  hitlerista.

No “relatório secreto” Kruschev havia afirmado que a cruel repressão que marcou os anos do “grande terror” tinha sido justificada apenas pelas confissões extorquidas sistematicamente dos supostos culpados por meio de coações físicas, “torturas bárbaras” e tornadas ainda mais intoleráveis por ameaças à liberdade  a até à integridade física dos próprios familiares, incluindo nisto, por decreto explícito do Comitê Central, a punição às crianças acima de doze anos. Desta maneira o regime despótico se torna criminoso, e o tirano, um  monstro.

A documentação a respeito é ampla e atroz, um repertório de perversões e de loucura que, em termos de sutileza, se iguala  à  infâmia  nazista. Os carcereiros não seguem um modelo único: as técnicas aprovadas se alternam com a improvisação, a cela das grandes cidades russas não é mais terrível que os subterrâneos dos pequenos centros das mais recônditas Repúblicas da União. São usados todos os meios disponíveis: saquinhos de areia, tenazes, agulhas e até mesmo cadeiras quebradas, tudo servindo para espancar o detento no estômago, quebrar-lhe as pernas ou a espinha dorsal, fazê-lo urinar sangue, fazê-lo arrepender-se de ter nascido. Os testemunhos dos sobreviventes, os samizdat, os relatos filtrados no breve período de degelo falam de três tipos  peculiares de tortura: a stroika, a isca e a cilha.

A stroika é um suplício que o policial pratica simplesmente mantendo durante horas sua vítima ereta de encontro a uma parede, sempre na ponta dos pés, até o seu colapso. A isca consiste em atar as mãos e os pés do infeliz atrás das costas, e suspendê-lo depois no ar, de cabeça para baixo, com epílogo idêntico se ele não confessa. A cilha é mais refinada, é um meio de convencimento que se realiza alternando a cada dia os policiais que se  comprazem  nesta  tarefa, de  prolongar por horas e horas o interrogatório do acusado, que se vê privado de alimento e do sono até que se decida a falar. No caso de se tratar de políticos dissidentes ou de intelectuais teimosos, forçam-se os tons, conduzindo o interrogatório durante a noite, com uma fileira de luzes cegantes e uma alucinante repetição das mesmas perguntas, realizadas por vezes com intervalos, mas ao longo de semanas, ou até meses, obrigando o presumível réu a dormir poucas horas por noite em celas excessivamente quentes ou geladas, cora alimento escasso, mas saboroso, que se torna depois uma pequena tortura, uma posterior provocação à fantasia. Normalmente, ao término de semelhante tratamento, o  autômato  a  que  se  reduziu o infeliz acaba se convencendo de que é realmente culpado.

À parte as razões preliminares das pancadas, que não são negadas a ninguém    e que em geral se confiam a executores particularmente robustos, em muitos apenas a ameaça de torturas como as descritas é suficiente para extorquir confissões ou impedir retratações que poderiam resultar incômodas na eventualidade, que não é em absoluto frequente, de processos públicos. O mesmo objetivo se busca obter ameaçando explicitamente represálias contra os parentes ou dando a entender à vítima que “a maneira realmente segura de fazer com que seja morta” consiste em recusar-se a reconhecer a própria  culpa. Pouquíssimos são os que conseguem resistir.

Seja como for, mesmo que se prescindam das torturas e das ameaças, de pressões materiais e psicológicas, da própria esperança de uma atenuação ou de um cancelamento da pena em troca da admissão da própria culpa — elementos  que são determinantes na capitulação de grande parte dos  imputados  —,  é  preciso levar em conta o fato de que a rendição não representa um ato isolado ou excepcional na vivência política dos militantes, mas antes “o pico de toda uma  série de submissões” ao partido, manifestadas fora da realidade e até do próprio e íntimo convencimento, por uma  espécie  de  sublimação do espírito gregário que  só pode encontrar um termo de comparação nos votos de obediência exigidos pelas mais rígidas autoridades monacais, mesmo que, tal como se dá  nessas ordens, a devoção ou, no caso, a “mística do partido” jamais tenha excluído, na Rússia e em outros lugares, rivalidades ferozes, obscuras intrigas e perfídias sem fim.

Stalin contava com um quadro psicológico semelhante e se fundamentava igualmente em sua convicção, difundida até mesmo entre seus opositores declarados,  de   que,   principalmente   nos   períodos   mais  dramáticos,  ele  era insubstituível. É muito significativa neste sentido uma frase de Bukarin: “Não é nele que confiamos, mas no homem em quem o partido depositou sua confiança. Ele se tornou uma espécie de símbolo do partido.” Para propiciar-lhe o triunfo, aliás, muitas das vítimas de Stalin haviam, no passado, posto em prática  os  mesmos métodos com os quais o georgiano viria a liquidá-las, inclusive a avalanche de acusações infamantes ou de ferinas injúrias despejadas habilmente contra os adversários internos e os militantes dos outros partidos de  esquerda.

Os “grandes expurgos”

Enquanto desencadeia o terror, Iosif Visarionovic acompanha com frio  realismo a alarmante evolução da situação internacional. São anos de fogo: a Alemanha nazista se arma novamente, a Itália fascista realiza a  empresa  da Etiópia com frágil oposição da Sociedade das Nações, o General Franco ataca à mão armada a República democrática da Espanha, despudoradamente apoiado pelos dois ditadores de Roma e de Berlim, enquanto franceses e ingleses se escondem atrás da folha de figueira da não-intervenção. Stalin não dorme: no campo diplomático, sela tratados de amizade com  a França e a Tchecoslováquia;  no campo político, ordena aos dirigentes do Komintern, a  Internacional  Comunista, que deem um giro de 360 graus em relação aos partidos socialistas e socialdemocratas, reavaliados de repente como componentes essenciais daquelas “frentes populares” que deverão se opor, em todo o Ocidente, e acima  de  tudo  nos campos de batalha espanhóis, contra a alastrante deriva da   extrema-direita.

O alarme com a situação internacional contribui, porém, para aumentar o enrijecimento do secretário-geral na frente interna. Em 1935, enquanto esboça o projeto de uma Constituição ultrademocrática que parece uma caricatura, de tal forma contrasta com  a  realidade  política  da  URSS,  enrijece a  legislação contra os “inimigos do povo” e, com a costumeira presteza paranoica,  aproveita  a  ocasião para um novo “romance policial” a fim de desencadear uma segunda e mortal onda de repressão. O caso que abre as cataratas do grande terror nasce de uma descoberta que a polícia afirma ter feito exatamente nos escritórios do Kremlin, de um complô para matar Stalin, e que tem como romanesca protagonista uma ex-condessa e como seu suspeito cúmplice — ou, quem sabe, inspirador? — o chefe da guarda do  palácio.

Realiza-se, assim, a portas fechadas, um processo neroniano, que se conclui  com duas condenações à morte e uma revelação com  a  qual  o  tirano  simula ficar perturbado: a de que o chefe da guarda foi íntimo colaborador de Trotski na época da guerra civil. É a pedra de toque que faz desabar a avalanche. Antes de tudo é preciso punir o dirigente que realizou em sua época a traição: é Avel Enukidze, um velho companheiro de armas georgiano e amigo de família de Dzugasvili, mas que Stalin detesta porque tem o vício de atribuir a si o mérito da gesta revolucionária por ambos realizada na juventude. Ele é expulso do partido e enviado para uma longuíssima localidade  transcaucasiana.

De tais circunstâncias emergem também duas lúgubres personagens: Nicolai Ezov, o grande inquisidor, que logo irá substituir Jagoda na direção da ex-GPU, agora NKVD, e Laurenti Beria, que já de saída se distingue pelo servilismo e o rancor com  que devora o conterrâneo Enukidze.

O mecanismo dos “expurgos” funciona, entre 1935 e 1939, como um jogo de caixas chinês, no sentido de que pouco a pouco os expoentes da antiga “facção de esquerda” e os da “facção de direita”, os dirigentes da NKVD e os chefes do Exército russo vão sendo encaixados em determinadas situações com base em depoimentos manipulados ou em testemunhos extraídos pelos inquisidores. Em meados de 1935, são presos em Nizni Novgorod alguns estudantes dos Komsomol, acusados de projetar atentados a Ia Nikolaev contra expoentes da nomenklatura. Graças a um agente provocador, a polícia descobre, naturalmente, que foi Trotski que inspirou a maquinação, e é este o pretexto que Stalin usa de imediato para comprometer definitivamente Zinoviev e Kamenev: ver-se-ão obrigados a confessar que as acusações a Lev Davidovic correspondem à  verdade, que eles também participaram do complô e, não só isto, que foram eles que armaram a mão do assassino de Kirov.

Quando, a 19 de agosto de 1936, abre-se o julgamento, decididamente trabalhados por Ezov, os dois desafortunados declaram que renunciam a defender-se e admitem suas imaginárias culpas, contando, entre  outras  coisas, como registra o copião do inquisidor, que forjaram quatro anos antes um fantasmático “centro paralelo”, coligado, obviamente, com Trotski, que do exílio deve ter comandado um atentado contra o próprio secretário-geral. Com esses depoimentos, os dois expoentes da “facção de esquerda” são liquidados, inclusive moralmente, frente à opinião pública e aos militantes do partido. Mas há ainda mais: um tal de Reigold, personagem menor do processo, manipulado, por sua  vez, pelas marionetes da polícia política, surge com um testemunho clamoroso, afirmando, à meia voz, que o Centro de Zinoviev teria tido contato inclusive com companheiros da “facção de direita”. É ainda o jogo de caixas  chinês.  Nas sessões que se seguem, Kamenev, com certa moderação, e Zinoviev, mais grosseiramente, engolem também essa despudorada mentira, permitindo que Vishinski acrescente à sua arenga final duas recomendações: o  fuzilamento  dos dois líderes e dos outros “cães enlouquecidos” da “facção pseudotrotskista” e a abertura de um inquérito penal sobre Bukarin, Rikov e Tomski.

Crepita ainda a fuzilaria que manda para   o inferno os dois supostos cúmplices do ex-comissário de Guerra, quando Tomski, o operário guindado à cúpula dos sindicatos soviéticos, dividido entre um ódio antigo e  correspondido  nos confrontos com Stalin e uma plena consciência dos próprios objetivos, se suicida para subtrair-se a um julgamento que sabe manipulado. Bukarin e Rikov, no  entanto, conseguem livrar-se. Ainda controlado em parte por uma maioria moderada, o Politburo comunica, em primeiro de setembro, que o inquérito conduzido por Vishinski é insustentável por total falta de provas: um xeque-mate, que desperta o maior furor no secretário-geral e o leva a encontrar um bode expiatório no fiel Jagoda, ao qual, com transparente alusão ao caso Riutin,  acusa  de estar com quatro anos de atraso. Ele  será  substituído  por  Ezov,  uma  alma negra do círculo stalinista, igual ou pior que o referido Vishinski.

Com a mudança de guarda na cúpula da polícia política,  o  terrorismo  de Estado sofre uma espantosa aceleração. Praticamente em todas as casas soviéticas se desencava um inimigo do povo, um renegado, um degenerado um traidor do socialismo, com uma violência de linguagem que é inversamente proporcional à fundamentação das acusações e que acentua o pavor  geral.

Difunde-se como uma peste o contágio da delação: “Uma sociedade presa do delírio recorre à denúncia por fé política, por inveja ou por interesse”, tanto que, segundo os cálculos de fonte insuspeita, mais da metade dos prisioneiros e dos fuzilados são vítimas da delação.

A obra-prima de Ezov, a armação das tramas, se deve a uma fala do secretário-geral a respeito da necessidade de criar-se uma maneira de fazer  crescer na URSS o temor de uma agressão dos países fascistas, atribuindo aos governos da Alemanha nazista e do Japão a inspiração de uma  série  de  sabotagens nas fábricas e nas instituições econômicas visando a uma guerra que deve encontrar despreparada a pátria do socialismo. Um  forte sinal neste sentido  já estava contido nas confissões de Zinoviev e Kamenev: cabe  a  Ezov desenvolver este ponto, partindo sempre do subentendido de  que, tecendo os fios  da torpe intriga, está Trotski, a quem se atribui a convicção de que somente uma derrota militar poderia reduzir a cinzas o poder do   georgiano.

Além de dirigentes marginais, Ezov aponta para dois dos últimos protagonistas da revolução: Grigori Piatakov, no momento colaborador de Ordzonikidze no comissariado da Indústria, e em sua época candidato da esquerda e dos social- revolucionários à substituição de Lenin, e também Karl Radek, brilhante editorialista de política internacional. Como de costume, atribuindo-lhes a responsabilidade por todo tipo de desastres registrados na produção industrial e na economia, e perpetrados a soldo dos odientos inimigos da URSS, livra-se assim também de incômodas acusações de ineficiência. A imputação se mostra ainda mais eficaz pelo fato de os dois acusados terem  feito muitas viagens ao Ocidente  e assim  entabulado sabe-se lá quantos contatos espúrios com  agentes de Berlim   e de Tóquio.

No momento em que Stalin lança a nova Constituição-modelo e acorre em auxílio da República espanhola, um caso igualmente vergonhoso de traição aparece, criado propositalmente para unir o povo soviético em torno do Partido Comunista e de seu chefe. Apenas Ordzonikidze, o antigo camarada de juventude   e de luta do secretário-geral, ora levado a Posições  mais  moderadas,  se  deu conta, como superior de Piatakov no comissariado da Indústria, de que  as acusações contra seu colaborador também o deixam  em  uma  situação  sem  saída. Fala a este respeito com Stalin e dele obtém a mesma promessa feita a Zinoviev e a Kamenev: se os dois acusados confessarem suas culpas como criadores do “centro paralelo” terão sua vida salva. Em  consequência,  a  partir deste momento, tanto Piatakov quanto Radek começam a admitir tudo aquilo que Ezov pretende, tal como o farão no processo público, fantasiando um encontro do primeiro em Oslo com Trotski e uma carta que o segundo  teria  recebido  do próprio Lev Davidovic, sempre no âmbito do programa de sabotagem em série organizado segundo os interesses de Hitler e do micado.

Acrescentam-se a isto, como o exige o jogo de caixas  chinês,  duas referências fatais: a Bukarin e a Rikov, como chefes da organização antipartido; e   a um general do Exército Vermelho, um tal de Putna, como interlocutor,  ou mesmo provocador, dos dois sabotadores em um  colóquio comprometedor.

Piatakov e outros acusados são condenados à morte, apesar da promessa do secretário-geral; desta se livram, com apenas dez anos, Radek e Sokolnikov,  em troca de abjetos testemunhos, embora venham ambos a morrer mais tarde de privações e maus-tratos em um gulag. O fuzilamento de seu colaborador e, sobretudo, a traição de Stalin transtornam de  tal  maneira  Ordonikidze  que,  na tarde de 17 de fevereiro de 1937, depois de uma série de  encontros  com  o  ditador, também ele se mata com um tiro de revólver. Com  seu suicídio rompe-  se o último elo do passado de Stalin: a partir de agora não lhe restam mais que os tétricos robôs da sua burocracia, até mesmo porque o processo  do  “centro paralelo” não é mais que o prólogo de expurgos definitivos, que levarão ao aniquilamento da “facção de esquerda” e do Estado-Maior.

A vez de Bukarin e de seus amigos, últimos bastiões da velha guarda, chegará em breve. Poucos dias depois do suicídio de Ordonikidze, é convocado o Comitê Central escolhido no XVII congresso e devidamente preparado por uma série de reuniões secretas entre Stalin, Szdanov e Ezov, em um clima de tal forma ameaçador que Bukarin inicia, como protesto, uma greve de fome, sem se dar conta de que o secretário-geral aproveitará esse seu gesto, tão estranho à mentalidade bolchevique, para pô-lo contra a parede, acusando-o de conduta antipartido. Na reunião planejada caberá a Molotov e a outros mastins a tarefa de lançar-se sobre o ex-queridinho do partido, que se defende, também em nome   de Rikov, com unhas e dentes, mas não consegue evitar a constituição de uma  comissão de inquérito e a votação, por grande  maioria, em  favor de  sua  prisão, do processo e até do fuzilamento dos acusados. O processo será aberto em 2 de março do ano seguinte.

O destino dos últimos bolcheviques não é, porém, o único argumento com que Stalin pretende atacar o Comitê Central. Seu objetivo principal vai muito além, uma vez que tem em vista uma gigantesca depuração do partido e das Forças Armadas. O desejo de controlar de maneira absoluta a sociedade soviética e também a ameaça de uma agressão nipogermânica  provocam  no  secretário- geral mais uma crise obsessiva, levando-o a realizar uma espécie de hemotransfusão: uma sanguinolenta troca de quadros dirigentes, sem fazer distinções. Na perspectiva de uma guerra, que sente iminente, quer gente  nova, mais jovem, que lhe seja devedora de poder e disposta a segui-lo sem discutir, a seu arbítrio. Assim, em um discurso feito a  3 de  março, lança  aos componentes do Comitê Central um desafio zombeteiro, um convite a escolherem  dois substitutos para cada um  no exterminado exército dos quadros para desmascarar  e desintegrar os inimigos do povo que agem nos bastidores em nome do partido. Em suma, o anúncio da pena capital ou da morte civil para dois terços dos companheiros, que, no entanto, ainda aprovam documente a proposta,  de  tal forma estão hipnotizados pelo carisma do tirano e pela funérea disciplina do partido.

Aliás, é o próprio Bukarin quem, antes de ser trazido a Lubianka, canalizará todas as contradições de sua militância em um documento que faz enviar, para registro, à mulher e que depois destrói: a reivindicação da própria inocência e a incapacidade de analisar a degradação da Revolução,  a  denúncia  das  prepotências policialescas de Stalin e a nostalgia diante da impiedosa violência do Outubro Vermelho. Ao pedir, no processo, a pena de morte para todos  os  acusados, Vishinski, o promotor público, o definirá como “um  cruzamento  diabólico de uma raposa com um  porco”. Bukarin, Ridov e Jagoda serão levados  ao paredão entre 13 e 14 de março de 1938, quando já estará  igualmente  concluído outro dramático episódio dos “grandes expurgos”: aquele de que foi involuntário e imprevisível protagonista o vice-comissário de Defesa, Michail Nikolaevic Tuchacesvski, marechal da União Soviética.

Não é fácil encontrar uma explicação para este segundo momento do “grande terror”. Às vésperas de uma guerra mais do que provável com a  Alemanha, e talvez com o Japão, Stalin manda fuzilar, sem processo, três dos cinco marechais  da União Soviética, 16 dos 17 comandantes do Exército, 60 dos 66 generais do corpo do Exército, 133 dos 199 generais de divisão, 221 dos 397 generais de brigada, além de quase todos os almirantes da frota e até grande parte dos comissários políticos do partido e dos agentes da NKVD infiltrados entre os militares. Não se pode crer que suspeitasse realmente de sua culpa. As  acusações para instigá-lo são fabricadas por Ezov ou indiretamente sugeridas pela Gestapo que, tendo notícia das operações e visando a  enfraquecer o Exército Vermelho,  faz chegar ao Kremlin, por vias transversas, uma  falsa  correspondência  a  respeito de uma imaginária conspiração entre Tuchacevski e seus  colegas  alemães — documentos que, naturalmente, a corte marcial considera autênticos. Em suma, pode-se crer que, na iminência de uma agressão hitlerista  que  se anuncia como fatal, o secretário-geral tenha decidido eliminar  um  poderoso  centro de poder, pelo qual poderia vir a ser chamado a responder quanto a suas derrotas iniciais.

Com os chefes supremos do Exército Vermelho são também liquidados quase todos os oficiais que haviam  amadurecido em preciosas experiências na Espanha  e na China durante a invasão  japonesa.

A operação começa, com uma rapidez fulminante, em junho de 1937. No dia 15 é constituída a corte marcial para julgamento dos supostos traidores, formada pelos dois marechais sobreviventes, Budenni e Bliucher, e mais cinco generais de garantida obediência stalinista. A 12 de julho,  coroando  um  processo  secretíssimo, comunica-se oficialmente que todos os acusados foram  fuzilados. Em seguida, Vorosilov revela aos leitores do Pravda que, antes da sentença, os miseráveis fizeram, evidentemente, uma confissão completa. O método  é sempre o mesmo: o chefe da NKVD envia a Stalin uma lista dos indivíduos suspeitos, esclarecendo que a polícia está efetuando investigações ulteriores. O ditador restitui infalivelmente a listagem com esta sucinta anotação: “Deixem de lado as investigações. Prendam-nos.” Não há setor algum da sociedade soviética que não tenha sido alvo da repressão: no triênio 1936-1939, o número  de soviéticos aprisionados, deportados ou justiçados chegaria a 4 ou 5 milhões de indivíduos, dos quais apenas 10% conseguiriam sobreviver.

O terror se exerce, particularmente neste período, também sobre comunistas estrangeiros: quase todos os alemães são liquidados ou, depois do acordo Molotov-Ribbentrop, em 1939, entregues aos nazistas; são ainda mais numerosos os poloneses depurados sob as acusações mais disparatadas, de trotskismo a espionagem para seu governo reacionário. Dos iugoslavos capturados quando em peregrinação a Moscou antes de estourar a guerra salvou-se apenas Tito, que consegue escapar em tempo para  Belgrado; os italianos acabam  no  gulag  sem que Togliatti mova um dedo para salvá-los, tal como durante o conflito com os infelizes prisioneiros da Armir* de Mussolini.

*Armir (Armata Italiana in Rússia) — Corpo expedicionário italiano enviado por Mussolini para apoiar a ofensiva alemã na Rússia, em uma expedição que se mostraria desastrosa. (N. T.)

A propaganda do partido e o diabólico  fascínio  do  secretário-geral criaram uma atmosfera de medo tal e, ao mesmo tempo, uma tão “alucinada exaltação” que não se registra um único episódio de rebelião coletiva e, ao contrário, manifesta-se um aspecto típico da psicologia popular nos regimes totalitários: o homem da rua e o próprio militante estão convencidos de que faz parte das atribuições dos chefes do PUCS, ou dos funcionários da polícia política, a responsabilidade pelas injustiças e pelos delitos cometidos sem  o  conhecimento  de Stalin, o qual, por sua vez, faz o papel de bom pai para o povo como nenhum outro ator do mundo: Napoleão tomaria com ele lições, e em matéria do grande Talma ele não tem  necessidade de  mestres.

Oficialmente, o “tornado” do terrorismo de Estado se aplaca no início de 1938, mesmo que na prática se manifeste ainda furiosamente por muitos meses. Para encerrar este capítulo recorre-se, mais uma vez, a um expediente já aprovado brilhantemente: descarregam-se os erros, mal-entendidos e “excessos” nos dirigentes intermediários e nos quadros  provincianos,  carreiristas  que  exageraram nas expulsões do partido e nas deportações em massa, e que esquecem o princípio basilar do comunismo que, segundo o incomparável secretário-geral, seria “a atenção e a solicitude para com o indivíduo”. Para confirmar este seu momentâneo acesso sentimental, em março de 1939, no decurso dos trabalhos do XVIII Congresso do PCUS, ele decide que os militares sobreviventes sejam liberados da prisão ou do gulag.

Entre estes, juntamente com Gorbatov e Tupolev — o  engenheiro  que  idealizou o melhor aparelho soviético de combate — está o General Konstantin Rokossovski, futuro marechal, um comunista polonês que é recebido por Stalin no Kremlin: “Espancaram você?”, pergunta o secretário-geral.

“Sim, companheiro Stalin.”

“Entre nós”, lamenta, imperturbável, o georgiano, “ainda há muita gente  que está pronta a tudo para agradar a seus  superiores.”

“Tenho medo”, ousa confessar Rokossovski, “de que 1937 venha a se repetir.” “O ano de 1937 não se  repetirá.”

No mesmo discurso, dirigido contra  os “excessos” dos “carreiristas”, Stalin   vai

a ponto de afirmar que a NKVD na realidade não abjurou do princípio elementar do comunismo, mesmo que, em dezembro do mesmo ano, ele  tenha  providências para livrar-se de Ezov,  fazendo  com  que  desapareça misteriosamente e seja substituído por seu compatriota Beria, personagem menos brutal, mas ainda mais bajulador e  ambíguo, que  será  justiçado somente  depois da morte do ditador, por iniciativa de seus  sucessores.

Guerra e paz

O senhor do Kremlin continua a enquadrar, a sua maneira, inimigos potenciais ou imaginários. Mas, ao mesmo tempo, volta a concentrar-se na situação internacional, que se torna  novamente dramática, e, como sói acontecer quando se ocupa de política externa, o faz com grande espírito prático, sem qualquer concessão ao preconceito ideológico, e menos ainda, como muitas vezes sucede com  Hitler e Mussolini, à vaidade pessoal. Sua  obsessão é de que a URSS possa  vir a ficar esmagada entre o Japão e a Alemanha. Para bloquear a ameaça do Oriente, se empenha em favorecer um entendimento,  mesmo  que  provisório, entre nacionalistas e comunistas chineses; mas vai encontrar dificuldades bem maiores na outra vertente, na qual se trata de refrear o alastrante expansionismo   do Führer, que, entre 1936 e 1939, recolhe uma  messe  de  extraordinários sucessos: o apoio à vitoriosa revolta de Franco na Espanha, a imposição do Anschluss* à Áustria e a divisão da Tchecoslováquia em dois protetorados  alemães. E agora o rolo compressor está se encaminhando para a Polônia, perigosamente vizinha da fronteira soviética. Há, pois, razão para o alarme vermelho.

*Anschluss — Anexação da Áustria à Alemanha, desejada pelos pangermanistas e imposto por Hitler em 1938. (N. T.)

O realismo não exclui o medo, as oscilações, os passos em falso.

Inicialmente, até a primavera de 1939, Stalin pensa em uma ação em comum com  ingleses e franceses, apesar de suas concessões em Mônaco; depois começa  a abrir caminho em sua mente a  convicção de  que, para  ganhar  tempo, talvez seja indispensável fazer um acordo, de  qualquer  forma, com  Hitler,  na esperança de que fascistas e capitalistas acabem se destruindo. Vai neste sentido    a renúncia do comissário do Exterior, Maksim Litvinov, que funcionava com os ocidentais, mas aos olhos dos nazistas cometeu o imperdoável erro de ser judeu e deve, por isso, entregar seu posto ao fidelíssimo Viaceslav Molotov, que de judeu tem apenas a mulher. A mudança da guarda vai começar em 3 de maio. São necessários três meses de paciente preparação antes de se chegar, em 23  de agosto, a um encontro que deixará o mundo estupefato e indignará muitos comunistas estrangeiros: na cúpula do Kremlin, entre Molotov e seu homólogo alemão, o ex-vendedor de champanha Ribbentrop, portador de uma espécie de ultimato. Como o Führer está com  muita pressa em    vista do início da agressão à Polônia, os dois ministros assinam a toque de caixa um tratado de não-agressão,  que inclui um codicilo secreto no qual as partes contratantes se comprometem a dividir o território polaco, aliás ainda não invadido, e de trocar matérias-primas estratégicas e outros produtos úteis em caso de guerra. A cerimônia é  honrada  com a presença do secretário-geral, que brinda à saúde do Führer, sublinhando amavelmente a popularidade de que goza o chanceler na nação   alemã.

No decurso de poucos dias, a guerra-relâmpago da  Wehrmacht  e  da Luftwaffe aniquila a heroica resistência polonesa: é uma outra  obsessão  para Stalin, que, em setembro, se apressa a estabelecer com os novos amigos camisa- marrom um segundo acordo, que vem seguido de uma declaração que deixa estupefatos ingleses e franceses, porque lhes atribui uma responsabilidade gravíssima, caso continuem a guerra agora que o problema polonês já está “resolvido”. Por este segundo pacto, soviéticos e hitleristas se comprometem a “sincronizar a ação” das respectivas polícias nos territórios ocupados e também a intercambiar detentos — uma cláusula que a NKVD interpretará no sentido de confiar aos cuidados da irmãzinha Gestapo comunistas alemães  encarcerados pelos mais diversos motivos políticos nas prisões soviéticas, muitos dos quais judeus. Estipula-se ainda que a URSS fará evacuar os territórios de etnia polaca assim que forem ocupados, obtendo, porém, em troca, a cessão da Lituânia, uma troca honesta, graças à qual Moscou completará o tríptico báltico de modo  a manter os alemães a distância naquela região de  fronteira.

O reforço de uma aliança tão estreita com a Alemanha, no momento em que  as tropas hitleristas estão se apoderando de quase toda a Europa, faz com que caiam em dramática crise muitos partidos comunistas estrangeiros, sobretudo o francês, ao qual o Kremlin manda que sabotem o já difícil esforço bélico de seu país. Mas isto é um  detalhe marginal que não perturba Stalin, o qual, ao  contrário — sempre visando a proteger as fronteiras de seu país —, lança um  seco ultimato  à Finlândia, intimando-a a aceitar a sorte a que foram entregues lituanos, estônios  e letônios. Não é um gesto feliz. Entre dezembro de 1939 e março de 1940, o pequeno exército do Marechal Mannerheim opõe ao Exército Vermelho uma resistência tão memorável que suscita a admiração de todo o mundo civil, induzindo o próprio Kremlin a conceder-lhes uma paz digna, que retoca os limites da Finlândia com a URSS, mas salvaguarda a sua independência. As dificuldades encontradas na canhestra operação sugerem algumas modificações na cúpula do Exército, na qual o jovem Marechal Timochenko assume o lugar de Vorosilov e algumas reformas formais, entre as quais a ressurreição dos galões, dos rituais e dos privilégios do antigo exército dos Romanov; mas a restauração protocolar naturalmente não compensa de imediato, em termos de eficiência, os terríveis vazios abertos com  o “expurgo”.

A derrocada da França elimina as últimas ilusões do ditador soviético, que esperara  até  o  último  instante  um  prolongado  e  recíproco  desgaste  entre os alemães e os aliados ocidentais. A assinatura de um tratado de não-agressão com  os japoneses, em abril, representa um motivo provisório de alívio, mas o pânico novamente se apodera de Stalin, que a 6 de maio decide assumir as funções de presidente do conselho, cargo que a partir de 1922 não  havia  mais solicitado. Agora o aceita porque, evidentemente, sente avizinhar-se  o furacão, tanto que,  nos contatos com os alemães, alterna cada vez mais exorbitantes pretensões territoriais com humilhantes protestos de amizade, chegando até  a  fingir  ignorar ou subestimar o impulso cada vez mais agressivo da Wehrmacht em direção às fronteiras da URSS. Embora os serviços secretos, os espiões e os desertores das patrulhas alemãs o informem minuciosamente a respeito de planos de um ataque iminente, o homem mais desconfiado da Terra minimiza, desmente e in extremis transmite aos comandantes soviéticos instruções as mais absurdas, como a de esperarem uma ordem explícita antes de revidar eventuais “provocações” dos hitleristas.

Parece quase antecipar o que faria Badoglio em 8 de setembro de 1943. Mas Hitler não provoca, Hitler ataca: havia decidido, há um ano, que atacaria a União Soviética e está fazendo isto. Às 3h45min do dia 22 de junho de  1941,  desencadeia a chamada “Operação Barbarruiva”: um quarto de hora depois, enquanto dorme em sua dacha em Kuntsovo, o Presidente Stalin é avisado de que começou a segunda invasão da santa Rússia depois da de Napoleão  Bonaparte.

Para ele, pessoalmente, repete-se a singular mutação que Hitler e Mussolini já haviam sofrido: o ditador político se torna (ou se ilude pensando tornar-se) um estrategista militar, um condottiero. No famoso “relatório secreto”, Kruchev é particularmente sarcástico a propósito do “gênio militar” de seu predecessor, afirmando que ele havia influído de modo desastroso na condução das operações bélicas devido a sua histeria, presunção e incompetência, embora posteriormente   a propaganda do regime viesse a exaltar seu papel com grotesca ênfase. Na sala espalha-se uma onda de irrefreável hilaridade quando Nikita Sergei [Kruchev] revela que o companheiro Stalin, exatamente como o ditador da obra-prima de Charlie Chaplin, preparava seus planos de guerra no mapa-múndi.  Ao  aludir depois ao torpedeamento de Zukov,  “o verdadeiro vencedor da  guerra nacional”, o orador relembra que, depois do grande empreendimento  realizado  pelo  Exército Vermelho a custos tão altos, o vodz não havia hesitado  em  degradar muitos comandantes que haviam contribuído de  maneira  decisiva  para  tal, porque ele não suportava que fossem  reconhecidos os méritos de outros que não  ele próprio, com suas dragonas douradas e seu uniforme de marechal da União Soviética.

Na verdade, durante os quatro e terríveis anos do conflito com os alemães, o homem alterna momentos de desânimo com períodos de extraordinária energia, erros clamorosos, iniciativas, intuições e discursos capazes de galvanizar os combatentes e  o povo. No dia  seguinte  ao 22 de  junho, foi acometido de uma crise de nervos durante uma reunião na Defesa, abandonando-a furioso e refugiando-se em sua casa de campo de Kuntsovo para  ali ficar até  o final do mês. No entanto, quando uma delegação do Politburo vai instar com ele para que retorne a Moscou, retoma o controle da situação, dirigindo aos russos o célebre apelo pela rádio: “Companheiros, cidadãos, irmãos e  irmãs…”  É  o  começo de uma guinada histórica, porque, a partir daquele momento, a defesa contra a agressão nazista se torna uma “guerra patriótica”, cessam todas as palavras de ordem e rituais do léxico bolchevique, renuncia-se até mesmo às perseguições à Igreja ortodoxa enquanto os nomes mais gloriosos da Rússia czarista, a começar pelos vencedores dos franceses em 1812, tornam-se a memória sagrada dos comandantes soviéticos.

Em relação aos generais, como Timochenko e  Zukov,  Stalin  mantém,  de início, sua proverbial desconfiança e a pretensão de sobrepor à sua competência profissional suas visões estratégicas pessoais, a ponto de atribuir-se a tarefa de comissário da defesa e de comandante-em-chefe das Forças  Armadas,  obrigando Zukov, o único colaborador que ousa fazer-lhe frente, a deixar o Estado-Maior. Mas quando, no verão de 1942, a Wehrmacht aperta o cerco a Leningrado, chegando a apenas 50 quilômetros de Moscou, e prepara-se para abocanhar Stalingrado (a sua velha Cary cin), então chama de volta Zukov e se resigna não só a deixar aos militares a condução das operações, como a acabar com os comissários políticos. Em termos de propaganda, a  sua  guerra  se  torna um extremado esforço no sentido de uma afirmação no mundo do antifascismo e da democracia, dissolvendo qualquer ligação com os comunistas estrangeiros em nome da cruzada pela libertação dos povos. A contribuição em  sacrifícios  e  sangue do povo soviético se traduz no terrível balanço de mais de 20 milhões de mortos, 32 mil fábricas destruídas, 1.700 cidades e 70 mil vilarejos arrasados, cerca de 100 mil fazendas incendiadas e destruídas pelo inimigo. Entre os mortos está inclusive o primeiro filho de Stalin, assassinado por uma sentinela alemã quando tentava fugir de um campo de concentração nazista.  Hitler  havia oferecido ao ditador georgiano a troca do jovem pelo marechal Von Paulus, capturado em Stalingrado, mas Stalin recusara.

Em termos políticos, a União Soviética sai da guerra como a segunda potência mundial, a única capaz (até certo ponto) de confrontar-se com os Estados Unidos  no momento em que a estrutura e a prosperidade do  Império Britânico  estão agora duramente redimensionadas. O epílogo está sendo triunfal: a 2 de maio de 1945, o Exército Vermelho içara a bandeira com a foice e o martelo sobre os escombros da Chancelaria de Hitler; a 24 de junho, uma imensa multidão, comovida e entusiasmada, saudara o grandioso desfile dos vencedores diante do mausoléu de Lenin, tendo à frente o Marechal Zukov em seu cavalo branco. A Stalin, que acompanha a parada juntamente com os dirigentes máximos do país, não agrada  o destaque  dado ao marechal e  o envia, no ano seguinte, para    uma guarnição de província para que medite sobre os riscos do bonapartismo.  A  euforia da vitória apaga também entre os aliados a mancha das fossas de Katy n, onde tinham sido descobertos os cadáveres de cerca de 10 mil oficiais poloneses, assassinados na primavera de 1940, e que a propaganda soviética havia divulgado como um dos mais horrendos crimes de guerra dos nazistas. Até  Churchill engolira o fantasioso relato de Stalin, segundo o qual “elementos polacos de tendência fascista”, isto é, membros do governo polonês no exílio em Londres, teriam atribuído o delito aos russos, tudo de acordo com Hitler.

No imediato após-guerra, a ingenuidade dos aliados ocidentais e  a  alternância na cúpula da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos permitem que o Kremlin tenha uma enérgica iniciativa que vem de longe, ou seja, dos primeiros contatos com Churchill e Roosevelt, quando buscavam selar um acordo  contra  o  Terceiro Reich. O objetivo da política externa soviética é, seguindo o espírito dos acordos  de Yalta, a posse permanente dos países da Europa Oriental libertados pelo Exército Vermelho no decurso do impetuoso avanço da última  primavera.  A morte do presidente americano e a inesperada derrota eleitoral do primeiro- ministro conservador inglês por obra dos trabalhistas interrompem, logo finda a guerra, um diálogo que na realidade nunca foi fácil e que se torna ainda mais dificultoso porque Harry Truman, o sucessor de Roosevelt, é  um  provinciano astuto e pragmático, que não tem a menor ilusão a respeito da formidável arremetida soviética em relação ao Ocidente e, de saída, anula a lei “de aluguéis    e empréstimos” que permitira aos russos alimentar sua heroica  resistência  com uma poderosa massa de ajuda  americana.

A 6 de agosto de 1945, o lançamento da primeira bomba atômica sobre Hiroshima, seguida em menos de um mês pela rendição do Japão, põe os americanos em posição de evidente vantagem, facilitando uma  política  de firmeza em relação ao comunismo, afirmada com um grande discurso pronunciado de surpresa em Fulton, Missouri, em presença do Presidente  Truman, pelo ex-Premier Winston Churchill. É a denúncia da nova ameaça que pesa sobre o mundo livre com a estratégia expansionista da URSS, constituída não só pelo vitorioso Exército Vermelho, como também pelas “quintas-colunas” representadas pelos movimentos comunistas que agem no Ocidente.  Como escritor clássico que é, e não por acaso premiado com o Prêmio Nobel de Literatura, Sir Winston Churchill inventa uma definição destinada a tornar-se famosa, quando afirma que caiu sobre a Europa, do Báltico ao Adriático, uma pesada “cortina de ferro”. Truman transformará o discurso de Fulton em uma doutrina estratégica, a da “contenção do comunismo em todos os continentes”, e diante da dura reação de Stalin deflagrará, por sua vez, a da “guerra fria”, que se prolongará na prática, salvo alguns esporádicos parênteses de distensão,  até  a queda do Muro de Berlim, no ano de  1989.

De  imediato,  depois  da  entrada  do  Exército  Vermelho  na  capital alemã, já totalmente destruída, e da grande parada de Moscou, o ditador  georgiano  encontrou em Potsdam os novos representantes do Ocidente, Truman e Attlee, entre julho e agosto de 1945, em uma reunião particularmente  fria  e  formal, depois da qual — encerrada também a guerra com o Japão — desapareceu de circulação por várias semanas, vítima, talvez, de misteriosa doença. Voltará ao Kremlin apenas no início do ano seguinte, quando já não lhe restam mais que oito anos de vida, que não serão fáceis nem gloriosos.

A partida

Apenas dois anos se passaram depois do vitorioso fim da guerra e as relações com os aliados ocidentais estão já deterioradas, não só  pela  desconfiança  recíproca e gritante incompatibilidade a respeito dos respectivos sistemas político-econômicos, como também porque o marechal, embora respeitando rigorosamente (por exemplo, na Grécia e na Itália) a divisão das zonas de influência, delega peremptoriamente aos dirigentes comunistas que agem nos países do Ocidente a tarefa da transformá-los mais ou menos gradativamente em outros dóceis satélites. As nuvens começam a adensar-se no verão de  1947, quando os americanos intervém em Roma para induzir De  Gasperi a  afastar  o PCI do governo,  oferecendo simultaneamente  à  Europa  a  grande  oportunidade do Plano Marshall para sua reconstrução. Stalin proíbe que  os  governos  da  Polônia e da Tchecoslováquia o aceitem e, quando Georgi Dimitrov — já secretário do Komintern na Alemanha e corajoso protagonista  do  processo erguido contra ele pelos nazistas pelo incêndio do Reichstag — lança um projeto que visa a constituir uma federação balcânica, rejeita-o como uma provocação antissoviética. Em 1948 registram-se outros significativos episódios de “satelitização”. No final de fevereiro, os comunistas tchecoslovacos dão um violento golpe de Estado, levando seu principal aliado liberal, o ministro das Relações Exteriores, Tomás Garrigue Masary k, a suicidar-se. Na primavera do mesmo ano, o Kominform, recuperado das cinzas do velho Komintern, mas representando apenas uma frágil imitação sua, excomunga Tito,  definindo-o como um agente do imperialismo, e com ele renega a experiência iugoslava de autogestão. Em junho, finalmente, os soviéticos bloqueiam o acesso por terra a Berlim, em represália à unificação da Alemanha Ocidental, mas uma gigantesca ponte aérea organizada pelos americanos minimiza esta  operação.

A estratégia do velho georgiano consolida os regimes comunistas nos países da chamada democracia popular, mas reforça a frente adversária. A 4 de abril de 1949, constitui-se de fato a Aliança do Atlântico, que terá na OTAN seu instrumento militar. A 8 de  maio nasce  em  Bonn a  República  Federal    Alemã, sobre a qual Moscou lança violentíssimas acusações de revanchismo e de nostalgia nazista. É neste momento que no grupo dirigente soviético começam a surgir difusas inquietações quanto à capacidade de Stalin e de seus mais antigos colaboradores, como Molotov, Kaganovic e  Mikoian,  de  enfrentar os problemas da reconstrução e do confronto com o Ocidente, ainda mais por estar emergindo na URSS uma geração de jovens tecnocratas que cresceram sob o  fogo da guerra e vêm temperados com uma visão mais moderna da sociedade. Stalin percebe os sinais da mudança e procura absorvê-los com uma recomposição do governo, que acaba reforçando Malenkov e Beria, mas, ao mesmo tempo, cede a mais uma de suas crises obsessivas, desencadeando mais uma onda de  repressão.

O velho senhor do Kremlin se prepara, assim,  para  festejar  os seus setenta anos em uma atmosfera sombria, de solidão e de suspeita: a imensa carga de responsabilidade que pretende manter depois da vitória, seu caráter colérico e violento, o desgaste físico provocado pelo abuso de alimentos pesados, de bebidas alcoólicas e de fumo aceleram seu declínio  natural.

Quando, porém, em 1949, atinge a casa dos setenta anos, a ocorrência é festejada em todo o mundo pelos comunistas e por  não poucos socialistas, com  um grotesco culto à personalidade stalinista. Falando, por exemplo, no Comitê Central do PCI a respeito das oferendas e presentes que chovem sobre o Kremlin de todas as partes do planeta, Palmiro Togliatti se pergunta por que isto acontece   e, com uma ênfase muito acima da habitual, responde: “A  verdade  é  que  a pessoa do companheiro Stalin tem no mundo uma parte tal, que jamais  foi  atingida por nenhum outro dirigente de partido, de povos, de  Estados. É inútil tentar compará-lo com outros desses dirigentes,  cujo nome  até  já  desapareceu da memória dos povos ou, se aí permaneceu, tem um lugar  bem  diferente  daquele ocupado por Stalin…” “Se pensarmos”, continua o secretário do Partido Comunista Italiano, “na vida de Stalin, imediatamente de fato ela golpeia não só a inteligência como a própria  imaginação dos homens, por  ser  algo de  grandioso, de maravilhoso, que se assemelha a um  portento.”

Provavelmente um homem diferente do portentoso georgiano depois de uma guerra tão dura e tão triunfantemente concluída teria concedido a seu povo e ao movimento comunista mundial uma trégua de serenidade, mas Dzugasvili não pensa nisto, nem mesmo por um instante. No ano mesmo  em  que  completa setenta anos, ordena a eliminação de três personalidades  eminentes  do  movimento comunista internacional: Traicho Kostov e Laszlo Raik são mortos, respectivamente, na Bulgária e na Hungria, ao passo que, na Polônia, Wladislaw Gomulka goza de um tratamento de favor, indo apenas para a prisão.  Quando chega a Moscou, Mao Tsé-tung, cuja Longa Marcha se  concluiu triunfalmente com a fundação da República Popular da China, em Pequim, encontra uma acolhida bastante fria, mas as dimensões de seu país e de  seu empreendimento são tais que Stalin, a 14 de fevereiro de 1950, autoriza a assinatura   do pacto sino-soviético.

A Ásia se torna o centro de gravidade da política e da angústia mundial na semana seguinte à assinatura do acordo, quando o Exército da Coreia do Norte, governada por um regime comunista de tipo semifeudal, e evidentemente por instigação dos russos, invade a Coreia do Sul,  ligada  aos  americanos. Apenas cinco anos se passaram depois do fim do hediondo conflito que varreu da face da Terra os nazifascistas e o imperialismo japonês, e já se esboça a ameaça de uma Terceira Guerra Mundial, sobre a qual pesa, por acréscimo, a ameaça da guerra atômica. Por sorte, no verão de 1953 a diplomacia prevalece nos  Estados-  Maiores e, ao cabo de longas e laboriosas negociações, consegue-se apagar o perigoso incêndio. A sensação geral, porém, é de que Stalin tenha visto seu golpe frustrado e que sua sombria velhice não seja uma boa  conselheira,  sobretudo quanto a decisões que dizem respeito às regiões  asiáticas,  onde  será  cada  vez mais necessário levar em conta o colosso chinês.

Em sua pátria, o tirano não encontra obstáculos  a  suas  obsessivas perturbações. Se durante a guerra “patriótica” se vira obrigado a conceder a seus súditos uma trégua ideológica em troca de sua contribuição e sangue, concluída a paz, ele decide apertar os freios, porque está sendo obrigado a confrontar-se com    o bloco capitalista e, internamente, com milhões de  soldados  que  voltam  para casa depois de terem experimentado as tentações do Ocidente. Desta vez os primeiros revoltosos que identifica são os revisionistas, os da facção de direita ou de esquerda do movimento, mas os intelectuais também se mostram seduzidos pelo cosmopolitismo e pelo sionismo, ou até pelas seduções da cultura burguesa, serpente venenosa que se aninha tanto na literatura quanto na arte, tanto  na  filosofia quanto na ciência, e até mesmo na economia, trazendo uma armadilha mortal à pureza da doutrina de Marx e Engels, de Lenin e de seu  melhor  discípulo, Iosif Visarionovic, que, para evitar qualquer contaminação, jogará o peso do próprio prestígio em todos os debates possíveis e imagináveis.

E, se antes da guerra a desconfiança e a  cólera  do  vodz  haviam  se concentrado em seus camponeses, seus antigos revolucionários e seus generais, agora é a vez dos escritores, poetas, músicos, gente de teatro e de cinema, cuja inteligência e sensibilidade representam objetivamente à antítese do fúnebre conformismo stalinista. Os maiores nomes da cultura soviética, de Bulgakov a Pasternak, de Shostacovich a Prokofiev, da  Achmatova a  Brodski, se  veem  alvo de uma obtusa perseguição que os marginaliza da sociedade,  priva-os  da  liberdade e do trabalho e muitas vezes os relega ao inferno daquele gulag cuja infâmia Aleksandr Solzenicy n eternizou em Um dia na Vida de Ivan Denisovic — uma ofensa imperdoável não só à dignidade da pessoa humana, como aos princípios fundamentais do socialismo, aos quais se atém, até mesmo no nome, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Sentinela incorruptível da pureza ideológica,    André    Zdanov,    homem    culto,    fanático    e    impiedoso,    será prematuramente arrancado do afeto de suas vítimas por sua debilidade de saúde: com Malenkov e Beria, Mikoian e Bulganin constitui um pequeno grupo de colaboradores no qual Stalin confia, embora apenas até  certo  ponto,  prevendo que, quando não estiver mais ali, eles ficarão como “gatinhos cegos”.

Mas os intelectuais, os artistas, os cientistas dissidentes não são as  únicas vítimas do furor senil de Stalin. Pelo contrário, entre 1947 e 1952, o campo de concentração da União Soviética irá rivalizar com o hitlerista pelo menos no que  se refere à brutalidade de tratamento usado com os deportados e à desoladora infâmia das condições ambientais. “Bem-vindos ao inferno” é a frase que encima  a entrada de uma fábrica em uma cidade da Sibéria setentrional, Norilsk, onde se calcula que tenham morrido 17 mil dos deportados aí chegados, recebidos,  tal como se deu com os judeus de Mauthausen e de Büchenwald, pelos agentes da polícia política encarregados de cuidar deles, com uma cordial mensagem:  “Vocês foram trazidos para cá não para viver, mas para sofrer e morrer. Se sobreviverem, das duas, uma: ou porque trabalharam menos do que deviam, ou porque comeram mais do que lhes tocava.” As condições gerais são as de todo campo de trabalho forçado, mas, naturalmente, nas regiões siberianas mais próximas do Círculo Polar Ártico (a mesma zona em que em sua juventude tinha sido exilado Stalin) a aspereza do clima e do ambiente acentua o   horror.

Ettore Mo colheu os testemunhos dos poucos sobreviventes do campo e do frio siberianos, que oscilava entre 40 e 50 graus abaixo de zero, “a grande e desconhecida carnificina dos condenados à prisão perpétua de Norilsk”: a  maior parte dos deportados é descarregada em uma portinhola, a 100  quilômetros  a oeste, e daí, “como uma grande manada”, é levada a pé para as minas ou para trabalhar durante meses com pás e picaretas na construção de  uma  ferrovia. Muitos desses infelizes enfrentaram a fúria dos mares árticos em  decrépitos barcos e retornaram à terra transidos de frio, esfomeados e inclusive “obscenamente emporcalhados, porque durante uma tempestade os barris de  bordo, cheios de excremento e de urina, caíram em cima deles”. Os turnos de trabalho nas minas ou na fábrica são de doze horas, com apenas dez minutos de intervalo para aquecer as mãos. Quem não respeita os ritmos de produção e as cotas estabelecidas pelos chefes está arriscado a ser fuzilado: os mortos são cerca de trinta por dia e acabam em um  cemitério do tamanho do de Moscou. A fome   e o desespero provocam reações de delírio, como  a  de  levantar-se  durante  a noite para caçar as ratazanas do barracão e cozinhá-las em uma lata, ou cortar os próprios dedos congelados com um golpe de machado para conseguir alguns dias de descanso na enfermaria. E muitas vezes os delinquentes comuns matam os criminosos políticos para serem levados a processo e saírem do  gulag.

A repressão atinge, neste período, até os parentes e os amigos mais íntimos do tirano, ora escravizado também às infernais intrigas de Beria, além de  suas  próprias  obsessões.  Nem  os  Svanidze,  nem  os  Alliluev,  os  familiares das duas esposas de quem é viúvo, são poupados por Stalin, que não hesita em mandar prender e deportar até mesmo Zenia, sua cunhada, que havia sido  por  algum tempo sua amante, além de sua melhor amiga, uma mulher  que  lhe  era totalmente devotada, a ponto de acreditar nele até depois de sua injusta condenação. À filha Svetlana, que lhe pergunta por que suas tias foram presas, o marechal explicará: “Falavam demais. Sabiam demais e falavam  demais. E isto dá vantagens a nossos inimigos.”

Com esses amigos e parentes também acabam na Lubianka seus próprios parentes, alguns dos quais de origem judaica. Stalin jamais se  declarou antissemita, mas durante e depois da guerra teve o maior cuidado em não denunciar abertamente o Holocausto e no após-guerra infligiu por duas vezes golpes sobre personalidades desta etnia, acusando-as de complôs antissoviéticos tramados com fundamentos sionistas. A 13 de janeiro de 1948, um misterioso bandido assassina Solomon Michoels, um grande intérprete do teatro iídiche, que  no início da Operação Barbarruiva havia criado um comitê antifascista judaico, incondicionalmente alinhado ao PCUS. Foi denunciado por dois membros do Comitê, “pisoteado de maneira selvagem” na Lubianka, mas, na realidade, quem   o pôs a perder foi o projeto, submetido ao ditador, de criar uma república judaica na Crimeia: delito de lesa-majestade da União, pecado nacionalista. No decurso desta primeira onda de perseguições antissemitas, a própria Paulina Molotov,  mulher do ex-ministro das Relações Exteriores, foi mandada para o  exílio, sem  que o velho bolchevique tenha ousado erguer a voz, nem mesmo  quando  o  ditador ordenou bizarramente que os dois maduros esposos se  divorciassem.

A segunda onda racista acompanhará os últimos anos de vida do marechal. O velho tigre já está, a esta altura, com o fôlego curto. Disto se teve uma clara impressão no verão de 1952, quando se realizou em Moscou o XIX congresso do partido, um evento que Stalin conseguiu adiar por treze anos, ou porque já sabe muito bem que não tinha mais forças para aguentar um debate, ou porque jamais acreditara na gestão colegiada do poder. É, de fato, Malenkov quem  faz  o  relatório principal e o emergente Kruchev a parte organizativa: o vodz se  limitara  a publicar, alguns dias antes, um ensaio sobre os problemas econômicos do socialismo na URSS, saudado como um  acontecimento  de  marcar  época, embora apenas venha a confirmar o modesto nível científico do autor. Maior ressonância obtém a breve intervenção com a qual ele encerra o congresso, instigando as delegações de comunistas estrangeiros a tomar em suas mãos “as bandeiras das liberdades democráticas e da independência” que a burguesia  “deixou cair na lama”.

Que já esteja cansado e doente é tão verdade que, depois de trinta  anos, renuncia ao cargo de secretário-geral do partido e aventa até a possibilidade de aposentar-se. No entanto, tem ainda guardada uma das suas surpresas: suas desastrosas condições de  saúde  insinuam  nele  a  suspeita  de  que  sejam devidas aos médicos da nomenklatura que dele cuidam, quase todos judeus, e que, por ordem  da pérfida organização sionista, teriam  feito morrer antes da hora Zdanov  e Scerbakov, e estão pensando também em mandá-lo para o outro  mundo.  Adquire a certeza definitiva disto quando o Professor Vinogradov, depois de  ter- lhe feito uma visita, o aconselha a renunciar a qualquer tipo de atividade  de trabalho. Desencadeia-se, assim, a segunda onda racista. O marechal põe de lado Beria, assume pessoalmente a chefia das operações e, com base em falsos testemunhos impostos a uma doutora do Kremlin, ordena a  prisão de  um  grupo dos mais ilustres clínicos do país, apresentando-os na imprensa, a 13 de  janeiro  de 1953, como “um bando de feras”, de assassinos terroristas, que planejavam igualmente assassinar dois marechais do Exército Vermelho. Obviamente, são todos réus confessos, e acabariam certamente diante de um pelotão  de fuzilamento se seu famoso paciente não os precedesse no  inferno  poucas  semanas depois da denúncia de sua suposta  conspiração.

Isso acontece nos primeiros dias de março de 1953. Embora se tenha falado  em consequências de uma violenta altercação entre o marechal e Vorosilov a respeito da questão dos médicos judeus, parece, no entanto, que ele tenha sido vítima de um ataque apoplético, de se esperar no velho burocrata guloso, incontinente e colérico que  ele  acabara se  tornando nos últimos anos. Depois de ter assistido, na noite de 27 de fevereiro, a um balé no Teatro Bolshoi e no dia seguinte, de manhã, a um filme em seu apartamento no Kremlin, partiu para sua casa de campo de Kuntsovo, juntamente com um grupo de colaboradores e aí os entretém com a última de suas ceias, prolongada  até  o  amanhecer,  regada  a vinho e recheada de lúgubres historietas que os hóspedes contam para seu divertimento. Depois manda todos para  a  cama na  cidade, desaparecendo por  sua vez no quarto da casa de campo em que  dorme.

Neste ponto, de primeiro a 5 de março, tudo se desenvolve em uma atmosfera turva e alucinante, na qual Beria se reserva um papel demoníaco, e Stalin acaba sendo vítima de uma trágica lei do retorno, se é verdade que  o chefe de  polícia adia ao máximo a intervenção dos médicos, contando, evidentemente, com  a morte do ditador para sucedê-lo; além de o ditador ficar sendo malcuidado pelos médicos finalmente reunidos (depois de doze ou catorze horas perdidas) porque entre eles não está, por estar trancafiado com seus colegas judeus na  Lubianka,  seu médico particular, Vinogradov, o único que conhece bem o doente e que está em condições de intervir de maneira adequada.  Atemorizados  apenas  com  a ideia de entrarem no alojamento de Stalin sem serem chamados,  os  de  sua guarda pessoal esperam toda a manhã do primeiro de março até as 11 horas da noite antes de decidir-se e descobrir, com espanto, o marechal caído por terra, na sala de jantar, junto à mesa, os cotovelos desesperadamente cravados no chão na inútil tentativa de se erguer.

Está    consciente,   mas   não   fala.   A   partir    daquele    momento,  embora prodigalizando ao vodz todas as atenções, só se veem chegar os  médicos  na manhã seguinte, depois que Beria apenas se mostra em companhia do marechal  na soleira e intima a que não falem  nada  com  ninguém, porque, segundo ele,  Stalin está apenas adormecido e não quer ser  perturbado.

Os médicos, por sua vez, não podem mais que constatar  a  hemorragia  cerebral que atingiu o marechal e tentar remédios de rotina, como a aplicação de sanguessugas, as injeções de cânfora e o oxigênio para ajudá-lo a respirar.

A agonia é longa e torturante. Avisados, incrivelmente, só no último momento, os filhos chegam transtornados a Kuntsovo. Svetlana corre para a cabeceira do moribundo, soluçando, apertando-lhe com força as mãos e tentando fazer-se reconhecer; Vasili está completamente ébrio e, informado pelos criados do atraso certamente provocado por Beria, perde o controle, berrando: “Canalhas, vocês mataram meu pai!” Continuará afirmando, ao voltar a  Moscou,  que envenenaram seu pai e, ao terminarem os funerais, será  preso  e  condenado  a oito anos de reclusão.

O marechal morre a 5 de março. A notícia é dada pela rádio ao povo soviético às 4 da manhã do dia seguinte, e no dia 7, depois da exposição do corpo na sala   das colunas do Palácio dos Sindicatos, são celebrados, ao som da Heroica de Beethoven, os solenes funerais. A loucura dos cidadãos que querem prestar homenagem ao defunto é tal que, no tumulto, são mortas quatrocentas pessoas:  são as últimas vítimas de Stalin, cujo desaparecimento é, contudo, saudado pelos comunistas do mundo inteiro com  profunda emoção.

O cadáver, devidamente embalsamado, será enterrado no mausoléu da Praça Vermelha, junto com a múmia de Lenin, e aí ficará até o dia da dessacralização, que se segue ao relatório secreto apresentado por Kruschev no XX  congresso.

Ao concluir este relatório, Kruschev comenta, entre outras coisas: “Não podemos dizer que tenha agido como um déspota alucinado, Ele achava que tudo isto deveria ser feito no interesse do partido, das massas trabalhadoras, em  nome da defesa das conquistas revolucionárias. É nisto que reside essencialmente a tragédia.” Uma de suas biógrafas, Lilly Marcou, que não é em absoluto hostil à personagem, contudo observa: “Stalin vive, se nutre e se circunda de abstrações.” Até a morte seria uma abstração? A inocência daqueles que mandava matar ou enviava para os gulags não o perturbava nem um pouco. O número de vítimas sacrificadas na realização de seu sonho era apenas uma questão de  estatística.  Não foi ele quem disse que “uma morte é uma  tragédia,  mas um  milhão  de mortes é apenas estatística”? E um observador objetivo e sagaz como o General De Gaulle, ao encontrá-lo durante a guerra, apreenderia sua mais profunda essência psicológica: “Era um comunista vestido de marechal, um ditador mascarado por sua astúcia, um conquistador afável, que se empenhava em enganar as pessoas. Mas a  sua  paixão era de  tal maneira forte  que  aparecia  de qualquer maneira, não sem  uma espécie de tenebroso  fascínio.”

Talvez ninguém como Iosif Visarionovic, animado por aquela paixão, tenha acreditado tanto no ditado segundo o qual o fim justifica os meios. Mas, à parte considerações de caráter moral, é um fato que os monstruosos meios utilizados  por Stalin conseguiram apenas um de seus objetivos, a potência  da  União  Soviética, mesmo que não o sucesso da Revolução socialista. Sem esquecer que a própria União Soviética, ao perder o desafio planetário para os Estados Unidos, desintegrou-se miseravelmente, junto com o regime, menos de quarenta anos depois do desaparecimento do secretário-geral.



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