O Plano real e Fernando Henrique Cardoso

Em 19 de maio de 1993, Fernando Henrique Cardoso foi nomeado para o cargo de Ministro da Fazenda pelo Presidente Itamar Franco, assumindo perante o país o compromisso de acabar com a inflação, ou pelo menos reduzi-la. Fernando Henrique ocupava até então o cargo de Ministro das Relações Exteriores. Para elaborar um plano de combate a inflação, o novo ministro reuniu um grupo de economistas no qual se destacam Persio Arida, André Lara Resende, Francisco Lopes, Gustavo Franco, Pedro Malan, Edmar Bacha e Winston Fritsch. Clóvis Carvalho, secretário-executivo do Ministério da Fazenda, coordenava as reuniões e passou a ser uma espécie de gestor da equipe, embora não fosse economista.

No Filme Real – O Plano por Tras da História (video abaixo – 6 partes), conta, mesmo que com lacunas como o plano foi criado e a relação do ex presidente FHC com Gustavo Franco e a falta de compromotimento com suas promessas.

Seguindo o filme completo, temos a verdadeira história de FHC. Um homem arrogante, comunista que deu o primeiro passo para o enfraquecimento das forças armadas, podendo assim evitar outro contragolpe e o fortalecimento do MST.

O derrocada do Brasil se deu no primeiro mandado de FHC, chegando ao seu ápice no governo Dilma.





















Texto fonte: Livro – O guia do Politicamente Incorreto dos Presidentes do Brasil – Paulo Schmith

O acadêmico inovador , o político habilidoso, o ministro-arquiteto de um plano duradouro de saída da hiperinflação e o presidente que contribuiu decisivamente para a consolidação da estabilidade econômica.
Dilma Rousseff


 

Que alívio para o país, após a decepção com o “Fernando do Mal” – Fernando Collor de Mello -, eleger desta vez o “Fernando do Bem”, um homem honrado, intelectual de prestígio, literato de verdade (ao contrário de Sarney), sem vínculo com forças retrógradas embora longe de ser um aventureiro, democrata até demais para os padrões nacionais e, principalmente, autor do único plano anti-inflacionário que funcionou a médio e longo prazo.

Mas o caminho percorrido para que o jovem sociólogo marxista se tornasse o melhor presidente da Nova República foi longo, demorado e gradual.

Nascido no Rio de Janeiro em uma família de classe média alta, Fernando Henrique Cardoso era filho, primo, sobrinho, neto e bisneto de militares graduados.

Primogênito de três irmãos, gozou de infância feliz e recebeu primorosa educação. Amante da literatura desde a adolescência, quando descobriu Balzac, Victor Hugo e Jorge Amado, nunca se mostrou, contudo, um rapaz introvertido.

Pelo contrário, sempre foi muito sociável e dado à amizade, sobretudo com pessoas igualmente inteligentes. Em 1952, graduou-se em ciências sociais na USP, onde teve por professores alguns próceres da intelectualidade acadêmica contaminada de marxismo, como Antônio Cândido e Florestan Fernandes.

No ano seguinte, aos 21 anos, casou-se com a colega de turma Ruth Vilaça Correa Leite, nove meses mais velha, natural de Araraquara, filha de um contador e de uma professora de botânica.

Nem bonita nem feia, mas tão brilhante quanto ele, Ruth fez doutorado em antropologia. Tiveram três filhos. Com o auxílio de Fernandes, de quem se considera discípulo, o recémformado Fernando iniciou carreira magisterial na própria USP.

Sua reputação e seus contatos fizeram com que, no governo Jânio Quadros, fosse convidado a integrar o Conselho Nacional de Economia, mas o jovem professor recusou: interessava-o apenas a carreira acadêmica.

De fato ele e Ruth, o sociólogo e a antropóloga, levavam uma vida tipicamente intelectual, chegando a ciceronear, em 1962, o mais célebre casal de inteligências do século XX, com quem, aliás, se identificavam: Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, em visita ao Brasil.

Com o Golpe de 64 e a subsequente notícia de que tropas do Exército o procuravam — inclusive prendendo outro docente por engano —, Fernando fugiu com a família, primeiro para a Argentina, depois rumo ao Chile.

Em 1969, foi aposentado compulsoriamente pelo AI-5. Numa visita ao Brasil, em 75, acabou detido em São Paulo pela Operação Bandeirantes, encapuzado e interrogado, sem mais.

“Fui perseguido porque tinha influência intelectual e por estar ligado ao Seminário de Marx”, explicou. “A posição do nosso grupo era claramente esquerdista, mas nessa altura eu não tinha a mais remota ligação com o PC. Essa ligação terminou nos anos 50.”

Entre 64 e 78, Fernando Henrique publicou diversas obras e lecionou em universidades no Chile, França, Estados Unidos e Inglaterra. Seus anos no exílio ampliaram a sua perspectiva política e econômica, afastando-o do simplismo de teorias marxistas, que ele subscrevera em livros como Capitalismo e escravidão no Brasil Meridional, desenvolvimento de sua tese de doutorado em sociologia (1961).

Eleito presidente, em 1994, foi-lhe atribuída pela Folha de S. Paulo uma frase que ele nega ter dito:

“Esqueçam tudo o que escrevi.” Se não disse, deveria, pois muito do que escreveu na juventude não vale o papel em que foi impresso. É o caso de Dependência e desenvolvimento na América Latina, de 1969, obra de 200 páginas que teve 256 edições impressas no México e se encontra na lista dos “dez livros que comoveram o idiota latino-americano”.

Coescrito com o sociólogo chileno Enzo Faletto, o livro advoga a existência de uma “dependência” dos países periféricos, isto é, subdesenvolvidos, com relação ao “centro”, a saber, os países desenvolvidos, que determinam as funções dos periféricos na economia mundial. Ou seja, a velha paranoia marxista sobre o complô dos países ricos para que os países pobres continuem pobres, expressa num academicismo quase ininteligível. Millôr Fernandes ofereceu um prêmio a quem conseguir explicar o que “o ociólogo preferido por nove entre dez estrelas da ociologia da Sorbonne” quis dizer no seguinte trecho:

É evidente que a explicação técnica das estruturas de dominação, no caso dos países latino-americanos, implica estabelecer conexões que se dão entre os determinantes internos e externos, mas essas vinculações, em qualquer hipótese, não devem ser entendidas em termos de uma relação “causal-analítica”, nem muito menos em termos de uma determinação mecânica e imediata do interno pelo externo.

Precisamente o conceito de dependência, que mais adiante será examinado, pretende outorgar significado a uma série de fatos e situações que aparecem conjuntamente em um momento dado e busca-se estabelecer, por seu intermédio, as relações que tornam inteligíveis as situações empíricas em função do modo de conexão entre os componentes estruturais internos e externos.

Mas o externo, nessa perspectiva, expressa-se também como um modo particular de relação entre grupos e classes sociais de âmbito das nações subdesenvolvidas.

É precisamente por isso que tem validez centrar a análise de dependência em sua manifestação interna, posto que o conceito de dependência utiliza-se como um tipo específico de “causalsignificante” — implicações determinadas por um modo de relação historicamente dado e não como conceito meramente “mecânico-causal”, que enfatiza a determinação externa, anterior, que posteriormente produziria “consequências internas”.

Nada mais distante da objetividade e clareza de livros mais recentes, lúcidos e despojados de todo ranço esquerdista, como A arte da política e A soma e o resto. Começou tarde na política, em 1978, de volta ao Brasil.

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Filiado ao MDB, elegeu-se suplente de senador por São Paulo. Quando Franco Montoro, o titular, desocupou a cadeira ao tomar posse como governador em 1983, Fernando Henrique substituiu-o e, senador, participou ativamente da campanha pelas Diretas Já. Nem sempre foi o homem moderado e conciliador da sua maturidade.

É inspirador vê-lo tornar-se melhor e mais sábio com o passar dos anos. O aplauso e reconhecimento mundiais por sua atividade intelectual, em tão tenra idade, fizeram sua vaidade inata beirar a soberba, como ficou evidente em 1985, quando concorreu à prefeitura de São Paulo.

Representante do que havia de mais moderno e esclarecido na política brasileira pós-ditadura, Fernando Henrique subestimou o seu principal concorrente, Jânio Quadros, a quem desprezava como um velho demagogo decrépito, esquecendo-se que esse velho demagogo decrépito havia sido, outrora, um dos políticos mais astutos e votados do país.

Tamanha era a sua confiança na vitória, que se deixou fotografar sentado na cadeira de prefeito. Perdeu para Jânio, por uma diferença de menos de 4%, e o Homem da Vassoura, com a veia histriônica de sempre, dedetizou publicamente a cadeira: uma lição de humildade que Fernando jamais esqueceu.

Favorito nas pesquisas de intenção de voto durante toda a campanha, o “sr. Henrique Cardoso”, como Jânio o chamava, cometeu erros crassos, melindrando o eleitorado conservador.

Um deles foi confessar, em entrevista à Playboy, que já fumara um cigarro de maconha. Depois, questionado pelo jornalista Boris Casoy, num debate televisivo entre os candidatos, se acreditava em Deus, o senador, em vez da insincera profissão de fé que qualquer outro político faria, desconversou: — É uma pergunta típica de alguém que quer levar uma questão íntima para o público, que quer usar uma armadilha para saber a convicção pessoal do senador Fernando Henrique Cardoso, que não está em jogo.

Acabou estigmatizado como “candidato maconheiro e ateu”. Em 1986, submeteu-se a uma cirurgia plástica para eliminar as feias bolsas negras que pendiam sob os seus olhos.

Nunca foi bonito, mas era considerado charmoso, condição aprimorada por sua cordialidade, eloquência e trato social. Ao contrário dos antecessores Nilo Peçanha e Campos Sales, admitia alegremente sua ascendência negra, dizendo-se “mulatinho”.

Comparado por alguém a Júlio César, respondeu, com muito humor, estar mais para Cipião Africano. Reeleito senador nesse mesmo ano, com mais de 6 milhões de votos, participou da Assembleia Nacional Constituinte.

Insatisfeito com o fisiologismo do PMDB — cujos principais membros eram o presidente Sarney e o governador paulista Orestes Quércia —, Fernando Henrique e outros dissidentes, como Mário Covas, José Serra e Franco Montoro, fundaram, em 25 de junho de 1988, o PSDB, Partido da Social Democracia Brasileira, único de orientação parlamentarista em todo o país.

O símbolo escolhido para a nova agremiação foi o tucano, a mais bela e típica ave da fauna do Brasil. Na sua primeira eleição presidencial, no entanto, o PSDB não levantou voo: em 89, Mário Covas ficou em quarto lugar, com pouco mais de 10% dos votos. O candidato tucano não havia feito nenhuma aliança: outra lição devidamente aprendida por Fernando Henrique, cujo nome comprido os jornalistas transformaram em sigla, FHC.

FHC foi líder do PSDB no Senado até 1992, quando o presidente Itamar Franco o convidou para ser seu ministro das Relações Exteriores. Em 1993, assumiu o Ministério da Fazenda e criou o Plano Real, que matou o dragão da inflação, lançou uma moeda forte e deu poder de fogo ao seu criador para concorrer à sucessão presidencial com apoio do governo.

Cônscio de que o PSDB, ainda novo, dispunha de uma estrutura incipiente, e não querendo repetir o erro de Covas, costurou uma aliança com o reacionário PFL, que contava com uma base forte no Nordeste — onde Fernando Henrique era pouco conhecido —, especialmente na Bahia, controlada pelo senador e “coronel” Antônio Carlos Magalhães.

O candidato a vice, fornecido pelo PFL, era o senador pernambucano Marco Maciel, cuja total inexpressividade política era compensada pela aparência estranhíssima, semelhante a um enorme dedo vestido de terno e gravata. O principal concorrente de FHC ao pleito de 1994 era Luís Inácio Lula da Silva, outrora seu aliado em manifestações contra o regime militar.

Mesmo em campos opostos, Fernando Henrique sempre tratou o pequeno arrivista como a um velho amigo, embora este, que jamais cultivou uma amizade desinteressada em toda a sua vida, atacasse o adversário durante a campanha inteira, comparando-o a Fernando Collor e chamando o Plano Real de “estelionato eleitoral”.

O símbolo da campanha de FHC foi a mão aberta, em oposição ao punho fechado do radicalismo esquerdista, mas também sinalizando as cinco metas do seu programa: agricultura, segurança, emprego, saúde e educação.

Para não ser taxado de elitista, apresentava-se como professor, não sociólogo. Nada era mais ridículo que ver esse homem sofisticado usando chapéu de couro, montando jegue e comendo buchada de bode em Caruaru.

Venceu no primeiro turno, em 4 de outubro de 1994, com 54% dos votos. Seu governo começou sob os melhores auspícios, pois além de muito popular, as alianças que costurara lhe garantiam ampla maioria no Congresso. Em contrapartida, essas mesmas alianças fizeram muitas reformas pretendidas pelo novo presidente, como a previdenciária, administrativa e fiscal, custarem a sair do papel, quando saíam.

Mesmo assim, foi mais longe do que teria ido qualquer outro mandatário em iguais condições. Fez cortes no orçamento, nos salários de burocratas, na quantidade da dívida de estados e municípios que o governo federal teria de cobrir, e privatizou empresas estatais onerosas. Com o dinheiro poupado graças a tais medidas, investiu maciçamente em infraestrutura física, mas também em educação e programas sociais de longo prazo. Extinguiu os ministérios da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, reunindo-os em apenas um, o Ministério da Defesa, o qual entregou a um civil.

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Com isso, colocava as Forças Armadas sob controle, impedindo um novo golpe militar, porém, ao mesmo tempo, deixando o país vulnerável contra milícias ilegais, como o MST. Em seus dois mandatos, quase 600 mil famílias de agricultores sem-terra foram assentadas, mais que o dobro do total nas três décadas precedentes, e em quantidade bem maior que nos dois subsequentes governos esquerdistas; caiu a taxa de mortalidade infantil e a expectativa de vida dos brasileiros subiu de 65 anos, em 1992, para 71, em 2000.

Se há dúvidas sobre a veracidade do ditado “por trás de todo grande homem há sempre uma mulher”, no caso dos presidentes do Brasil ele tem sido muito veraz. Ruth Cardoso foi certamente a melhor primeira-dama que tivemos. Atingida pela gestão desastrosa de Rosane Collor, a LBA, extinta no primeiro dia de mandato do novo presidente, em 1º de janeiro de 1995, foi substituída pelo programa Comunidade Solidária, sob a direção de Ruth.

O sucesso do programa foi tamanho que, em dezembro de 2002, os projetos em execução mobilizavam 135 mil alfabetizadores, 17 mil universitários e professores, 2.500 associações comunitárias, 300 universidades e 45 centros de voluntariado. Lula, naturalmente, cancelou o programa em seu primeiro ano de governo. Nem tudo era harmonia nesse formidável casal. Apesar das indiscutíveis afinidades, Fernando e Ruth diferiam num ponto fundamental da vida pública: ela, ao contrário dele, não desempenhava com boa vontade a pompa e o ritual do poder.

Para começar, não apreciava o título de “primeira-dama”, que, no seu entender, pressupunha um rebaixamento na condição de igualdade que sempre mantivera com o esposo. Tampouco se sentia confortável com o assédio da população. Quando, em novembro de 1994, uma estudante pediu-lhe autógrafo chamando-a de “tia”, recebeu uma reprimenda: “Não me chame de tia.”

Como quer que fosse a vida conjugal de ambos — não é incomum, em uniões tão cerebrais, a parte sexual ser relegada a segundo plano —, o fato é que Fernando Henrique pulou a cerca. Quando professor, devia ser constantemente assediado por alunas jovens e curiosas, situação que a investidura no poder intensificou. Um dos seus casos extraconjugais teria sido, segundo rumores na internet, com a bela jornalista e apresentadora Ana Paula Padrão; outro, assumido, foi com a também jornalista Miriam Dutra.

FHC chegou a reconhecer como seu um filho dela, nascido em 1991. Em 2011, contudo, por pressão dos seus filhos com Ruth, ele e o rapaz se submeteram a um exame de DNA, que resultou negativo: o filho de Dutra não era seu.

Aos 80 anos de idade, o ex-presidente poderia ter poupado a si mesmo dessa humilhação pública. Com a aproximação do fim do seu mandato, FHC instou a base aliada a iniciar as articulações para que a constituição fosse alterada e ele pudesse concorrer à reeleição.

Foi muito criticado por isso, mas sabia que reformas como as que o Brasil necessitava não podiam ser implementadas em quatro anos, ao passo que só nos governos parlamentaristas ou ditatoriais um chefe de governo pode ficar no poder por tempo suficiente para realizar políticas indispensáveis. E ele era parlamentarista por convicção.

A emenda da reeleição foi aprovada em junho, porém boatos de compra de votos de deputados, supostamente intermediada pelo ministro das Comunicações, Sérgio Motta, chegaram à imprensa.

Toda essa especulação se baseava em um comentário “grampeado” de um dos parlamentares, que na ocasião teria dito “o Sérgio acertará isso”. De qualquer forma, ao fato foi dada livre e ampla interpretação, tendo a oposição se utilizado largamente dele, embora nada se tenha comprovado contra a lisura do ministro ou sobre o seu envolvimento com esses parlamentares.

A esse respeito, o próprio Fernando Henrique se limitou a comentar:

Afirmou-se que a reeleição obrigou a uma relação espúria com o Congresso, inclusive com compra de votos. Mentira. Todo mundo
queria reeleição naquela ocasião. Todos os editoriais de jornal, todas as pesquisas de opinião. A reeleição ganhou na Câmara por mais de quarenta votos, e no Senado com 80% de aprovação. Comprar voto pra quê?

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As calúnias da oposição de nada serviram: em 4 de outubro de 1998, com 53% dos votos válidos, FHC derrotou Lula novamente, a primeira reeleição presidencial consecutiva da República. Mas as dificuldades desse novo mandato fariam o anterior parecer um piquenique. Em abril de 99, FHC perdeu seus principais aliados: no dia 19, o ministro Sérgio Motta, e, dois dias depois, o presidente da Câmara, Luís Eduardo Magalhães.

Este, considerado uma versão nova e menos prepotente do pai, Antônio Carlos Magalhães, ditava o rumo das votações que interessavam ao governo no Congresso. Morreu de infarto, com apenas 43 anos. Ainda maior para o presidente foi a perda de Sérgio Motta, seu velho amigo e principal articulador junto ao Congresso. Como ministro, estimulou empresas estatais de comunicação a investir no Programa Nacional de Cultura, desenvolvido por FHC.

Espécie de porta-voz informal da presidência, “Serjão, o Trator”, como era conhecido, atacava os inimigos de Fernando Henrique com a rudeza e impiedade que faltavam a este, além de empregar sua considerável energia para fazer aprovar a emenda da reeleição e os processos de privatização. Gordo e de sorriso quase desdentado, lembrava um pouco o personagem João Bafo de Onça, de Walt Disney. Pouco antes de morrer, vítima de uma infecção pulmonar causada pela Legionella pneumophila, bactéria que prolifera nos aparelhos de arcondicionado sem manutenção, enviou um fax ao presidente, que o leu em público, com lágrimas nos olhos: “Não se apequene.

Cumpra seu destino histórico. Coordene as transformações do país.” Para Paulo Markun, “a articulação política do governo jamais seria a mesma depois da dupla perda em menos de uma semana

Apopléticos com mais essa derrota nas urnas, Lula e os petistas iniciaram uma feroz campanha golpista intitulada “Fora FHC”, inundando o Congresso com pedidos de impeachment contra o presidente, os quais eram arquivados, um após o outro, por absoluta falta de embasamento. As denúncias, cuja maioria envolvia políticos da base aliada acusados de corrupção, nem de longe respingavam na pessoa de Fernando Henrique.

Como o de Vargas, o segundo governo FHC foi mal-sucedido, e primariamente pela mesma razão: crise internacional. A queda da economia dos Tigres Asiáticos (Hong Kong, Coreia do Sul, Singapura e Taiwan), da Rússia e, depois, da Argentina, causou abalos financeiros que o Brasil ainda não estava preparado para suportar. O real precisou ser desatrelado do dólar e a inflação ressuscitou, mas não nos índices anteriores.

O anúncio da moratória de Minas Gerais, por parte do ressentido Itamar Franco, fez despencar todos os índices das Bolsas de Valores no Brasil e as cotações dos títulos da dívida externa brasileira. Em 2001, como desgraça pouca é bobagem, o aumento do consumo de energia elétrica em decorrência da melhora do poder aquisitivo da população, somado a intensas estiagens no período, provocou blecautes pelo país afora, na chamada Crise do Apagão.

O resultado desses infortúnios todos, nenhum de responsabilidade do presidente, foi a queda vertiginosa da sua popularidade. Em 2002, o candidato escolhido para disputar a sucessão de FHC foi o seu amigo José Serra, um dos mais notáveis homens públicos do Brasil contemporâneo.

À frente do Ministério da Saúde, Serra implementou dezenas de programas excelentes; o de combate à AIDS foi inclusive adotado por outros países e apontado como exemplar pela ONU. Criou a lei de incentivo aos medicamentos genéricos, possibilitando a queda dos preços dos remédios, e eliminou os impostos federais dos medicamentos de uso continuado, entre muitas outras conquistas na área da saúde. O candidato oposicionista à sucessão presidencial foi, mais uma vez, Lula, sanguessuga de Fernando Henrique e, em breve, de todo o país.

Tendo sido vítima de campanhas eleitorais difamatórias desde muito cedo — em 1985, Jânio havia declarado que “se Cardoso for eleito, colocará maconha na merenda das crianças” —, e alheio, por educação e temperamento, a qualquer baixaria, FHC exigiu que a campanha de Serra mantivesse um nível elevado.

O máximo que esta apresentou foi um programa em que a atriz Regina Duarte declarava ter medo de Lula e do que a vitória dele traria ao país, mas esse depoimento profético não causou maior impacto, pois o Brasil havia perdido o medo do “Lulinha Paz e Amor” criado pelos marqueteiros a soldo do PT. FHC não permitiu sequer que os tucanos vinculassem o Partido dos Trabalhadores à invasão de sua fazenda na cidade mineira de Buritis, em 23 de março, levada a cabo por bandoleiros do MST, que provocaram depredações na propriedade e beberam todo o estoque de bebidas da adega — uísque, cachaça, vinho chileno e até vinagre. Serra poderia ter vencido essa eleição mostrando quem o candidato do PT realmente era, mas por causa da leniência de Fernando Henrique, perdeu, e o Brasil perdeu, caindo nas garras dos piores criminosos que já assolaram a nação.

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Lula venceu no segundo turno, com 61% dos votos contra 38% de Serra, e, em 1º de janeiro de 2003, recebeu a faixa das mãos de FHC, que foi o primeiro presidente democraticamente eleito a passar o cargo para outro igualmente eleito, desde 1961. O Sapo Barbudo — como Brizola apelidara Lula na disputa de 1989 —, que nunca perdoaria Fernando Henrique por haver lhe roubado a vitória em 94 e em 98, ainda por cima no primeiro turno, renovou seus ataques ao odiado rival, chamando o governo dele de “herança maldita” enquanto se beneficiava de todas as medidas desse mesmo governo, inclusive copiandolhe descaradamente os programas sociais e relançando-os com nomes diferentes. Quando, em 2005, veio à tona o escândalo do Mensalão e a oposição cogitou exigir o impeachment de Lula, em vez de dar o troco pelo “Fora FHC”, Fernando Henrique, incompreensivelmente, recomendou ao PSDB que não prosseguisse no intento de afastar o presidente mensaleiro.

No que foi acatado, pois, ao contrário dos petistas, os tucanos jamais encararam adversários políticos como inimigos a serem eliminados. Essa situação remete a outra, ocorrida no alvorecer de 1924, na recémfundada União Soviética. Em reunião do Comitê Central do Partido Comunista, que governava o país, foi lido o testamento de Lênin, em que o finado líder bolchevique recomendava o afastamento de Stálin da Secretaria Geral, à frente da qual vinha este cometendo violências e fortalecendo suas bases para se tornar governante absoluto.

Leon Trotski, um dos principais teóricos da Revolução Russa e inimigo de Stálin, teve então a oportunidade de se manifestar contra ele, mas não o fez. Com isso, Stálin permaneceu secretário-geral, tomou o poder, assassinou Trotski e 45 milhões de russos, incluindo Trotski, ao longo de trinta anos da ditadura mais sanguinolenta da história. Como Trotski, FHC não pediu o afastamento de Stalula e, por causa disso, o Brasil vem padecendo sob a hedionda ditadura camuflada lulopetista, que inclusive persegue a ele, FHC, implacavelmente, difamando-o e caluniando-o sem trégua. A retribuição pelo favor veio em 2008, quando o governo Lula, na pessoa da chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, forjou um dossiê falso — uma das práticas petistas mais recorrentes — para enxovalhar ninguém menos que a ex-primeira-dama Ruth Cardoso, como registrou Ignácio de Loyola Brandão na página 224 do seu livro Ruth Cardoso: fragmentos de uma vida:

Ruth Cardoso tinha razão quanto a querer se distanciar da política como ela é feita no Brasil e em certos setores de Brasília. Ela, que sempre foi uma pessoa célebre pela integridade e pelo cuidado com a coisa pública, se viu ameaçada pela então chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, com um escândalo em torno de um dossiê sobre os gastos corporativos da presidência, em que alegava que Ruth havia despendido milhares de reais ou dólares em compras fúteis, inúteis e banais, em vinhos e comidas. Caiu mal no mundo político, no qual Ruth sempre foi respeitada até mesmo pelos adversários mais ferrenhos.

O jornalista Augusto Nunes, que tem um blog dos mais visitados, não resistiu e comentou:

“Dilma foi a primeira a agredir uma mulher gentil, suave, e também por isso tratada com respeito até por ferozes inimigos do marido.”

Pegaram pesado e Ruth sentiu o baque, logo ela que sempre teve o cuidado de separar o privado do público, até mesmo no aluguel de filmes exibidos no palácio. O dossiê teria sido preparado pela secretária executiva da Casa Civil, Erenice Guerra.

As reações contra o dossiê foram imediatas e a chefe da Casa Civil se desculpou, voltou atrás. Ruth, elegantemente, ainda que magoadíssima, aceitou as desculpas, porém o círculo íntimo sabe quanto isso a feriu e atingiu um coração já afetado.

Nesse mesmo ano de 2008, a 24 de junho, Ruth Cardoso faleceu, vitimada por problemas cardíacos decerto agravados pelas sórdidas calúnias de que fora alvo.

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Afastado da política, mas a acompanhando de perto, Fernando Henrique passou a dividir seu tempo entre o iFHC, Instituto Fernando Henrique Cardoso, fundação cultural criada em 2004, e dando palestras no Brasil e no exterior, sempre homenageado, premiado e festejado em todo lugar aonde vai.

“FHC foi um dos raros políticos de seu tempo a entender o novo mundo”, conclui o jornalista Carlos Alberto Sardenberg.

“E soube como realizar essa agenda que mudou o Brasil de forma duradoura. Certamente houve equívocos e acidentes de percurso. Mas eis o que importa: ficamos com uma moeda de verdade e todo um arcabouço institucional que preserva a estabilidade macroeconômica. Um outro país.”

PRIVATIZAÇÃO JÁ

Como disse FHC no início do seu primeiro mandato, o modelo de desenvolvimento autárquico e intervencionista de Getúlio Vargas assegurou progresso e fomentou a industrialização do Brasil na década de 50, mas começou a ficar obsoleto nos anos 70. Na economia globalizada da atualidade, a privatização de empresas estatais é um poderoso instrumento gerador de riquezas, modernidade tecnológica e empregos, que dinamizou e tornou competitivas economias quebradas, como as da Itália e do Reino Unido, e empurrou para o século XXI países ainda atrelados ao passado, como a Espanha.

Administrador moderno e conhecedor da economia mundial, mesmo não sendo economista, FHC compreendeu o óbvio: que o Brasil não podia continuar com uma economia fechada e arcaica quando até países comunistas, como China e Vietnã, haviam descoberto os benefícios da privatização.

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Na telefonia, energia e aviação encontram-se os três melhores exemplos do sucesso dessa política adotada pelo seu governo. O telefone era artigo de luxo e poucos podiam ter um; em 1998, ano da privatização da Telebrás, 25% das residências brasileiras tinham linha telefônica; hoje, 68% têm telefone fixo ou celular. Antes da privatização, a Companhia Vale do Rio Doce era a nona mineradora do mundo; hoje é a segunda. A Embraer estava à beira da falência quando foi a leilão em 1995; hoje é o terceiro maior fabricante mundial de aviões. Há muitos outros exemplos das vantagens, em todos os níveis, de se privatizar uma estatal:

As empresas que compraram as malhas da Rede Ferroviária Federal — típica estatal com muitos funcionários e pouco investimento — hoje transportam 80% de carga a mais. Para dar conta desse aumento, a indústria de equipamento ferroviário renasceu: o número de vagões produzidos saltou de 200 em 1992 para 7.500 em 2005, o que representou a construção de quatro novas fábricas e a criação de 30 mil empregos. Da mesma forma, os terminais portuários administrados por empresas privadas reduziram à metade o custo de movimentação de contêineres.

“A privatização trouxe melhoria de serviços, redução da dívida pública e crescimento de vários setores, antes tolhidos por serem estatais”, afirma o economista Armando Castelar Pinheiro, do Ipea. Lembrando também que, nas estatais, o critério para nomeação de diretores é meramente político e não técnico, importando menos que o dirigente seja um profissional competente do que apaniguado de um deputado, governador ou presidente. A encarniçada guerra à privatização movida pelas esquerdas era vista por analistas imparciais como mero ódio ao progresso e amor ao atraso. No entanto, depois que o PT chegou ao poder, em 2002, e vampirizou a maior estatal brasileira, a Petrobras, no escândalo do Petrolão (ver página 400), a aversão petista por privatizações de estatais ficou mais bem explicada: essas empresas deveriam permanecer sob o controle do Estado para serem devidamente espoliadas quando os “companheiros” se instalassem no governo, transformando-as em antros de empreguismo, fisiologismo e corporativismo.





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