O fim do liberalismo




Autor: Ronaldo Mota

Longe de serem as raízes da liberdade, o Iluminismo e a Revolução Francesa representam as sementes do despotismo totalitário que hoje ameaça o mundo.”




Recentemente li, por indicação de um amigo, o livro O Melhor de Peter Drucker. Fiquei surpreso. Não esperava encontrar o que encontrei. Julgava que esse famoso professor de administração trataria de coisas muito específicas de sua área e nada mais. Todavia, lendo com calma, percebi que estava enganado e ao mesmo tempo descobri um dos motivos pelos quais ele se tornou tão famoso e admirado, a saber, ele possuía uma visão muito objetiva sobre aquela tarefa que todo homem tem que desempenhar ainda que em graus e campos distintos, isto é, administrar.

 

Peter Drucker, analisando a sociedade do ponto de vista da administração, chegou a conclusões sobre eventos históricos e sociológicos que são tão profundas ou até mais que aquelas de muitos profissionais dessas áreas. Um exemplo interessante é a análise que ele faz do liberalismo. De acordo com Peter Drucker:

 

Longe de serem as raízes da liberdade, o Iluminismo e a Revolução Francesa representam as sementes do despotismo totalitário que hoje ameaça o mundo.[1]




Aqueles que conhecem apenas uma versão secundarista desses eventos históricos tomarão um susto e ficarão perplexos diante de tal afirmação. Afinal de contas, é exatamente o oposto do que se encontra em livrinhos de ensino médio; o que, aliás, é bem compreensível, visto que muitos historiadores – pouco objetivos devido às travas ideológicas – não querem ver o que análise objetiva pode verificar.

 

Peter Drucker, partindo como Aristóteles da evidência de que uma sociedade bem ou mal é sempre administrada, foi estudar os procedimentos dos governos liberais e chegou à conclusão de que o “racionalismo liberal fracassou em todos os lugares que chegou ao poder.[2] E para compreender esse fracasso passou à análise dos princípios segundo os quais os liberais quiseram conduzir o Estado. Foi então que, analisando estes princípios e a história, Peter Drucker acabou notando que “todos os movimentos totalitários dos dois últimos séculos da história ocidental nasceram do liberalismo dessa época. Há uma linha reta que liga Rousseau a Hitler – uma linha que abrange Robespierre, Marx e Stalin. Todos surgiram da falência do liberalismo racional de suas épocas.[3]

 

As conclusões de Peter Drucker são perspicazes e há uma explicação filosófica mais profunda para elas. O fracasso do liberalismo verificado por Peter Drucker foi explicado filosoficamente de modo muito claro na obra El Error del Liberalismo do Card. Louis Billot. Nessa obra, partindo do conceito específico de liberdade que é fundamento do movimento liberal, o Card. Billot deduz perfeitamente seu fim trágico e tirânico. O grande problema está na ideia de liberdade. Para os liberais a liberdade é o bem fundamental contra o qual não se pode atentar por meio de coação.[4] O indivíduo é autônomo[5], ele é origem e fim das leis. Ora, se não pode haver coação, ou seja, se a sociedade está impossibilitada de forçar o indivíduo a cumprir certas leis e normas sociais, visto que o indivíduo é absolutamente livre como quer o liberalismo, não haveria nada que efetivamente garantisse o cumprimento das normas mais básicas e essenciais do convívio social. Nessa sociedade desestruturada, onde não haveria regra alguma acima da absoluta liberdade individual, estaria estabelecida a luta pela vida, luta na qual não restaria nenhuma outra regra senão a força. Por isso, conclui o Card.Billot, “sobre as mônadas desagregadas e dissociadas, introduzidas pelo individualismo, nada pode já permanecer a não ser aquele ingente colosso do Estado onívoro, o qual, tendo destruído toda organização e autonomias inferiores, absorve em si toda força, todo o poder, todo direito, toda autoridade e se converte no único administrador, procurador, instituidor, preceptor, educador e tutor, enquanto espera converter-se também no único proprietário e possuidor.[6]

 

No centro de toda essa problemática está o coração da modernidade: o conceito de liberdade liberal. O conceito de liberdade do liberalismo apresenta-se num embate de morte com a natureza social do homem, visto que conduz à desagregação da ordem social e posteriormente à constituição de um Estado ditatorial. Isto nos mostra a Administração, a lógica e a História.

 

Peter Drucker vai mais além, para ele a “base do hitlerismo – assim como dos totalitarismos anteriores – foi fornecida já pronta pelos liberais racionalistas. O método foi usado duas vezes antes com grande sucesso e Hitler lhe acrescentou um cinismo moral impraticável nas épocas de Marx e de Rousseau. Mas se mostrou possível e até popular no momento em que a psicologia pregava que o homem não é dotado de uma essência moral. Hitler deve agradecer aos psicanalistas e psicólogos a explosiva força do nazismo, presente no Fuehrer Prinzip.”.[7] E conclui que as “raízes do nazismo encontram-se no determinismo biológico que se iniciou com Darwin. E o significado e a estrutura política do hitlerismo podem ser compreendidos apenas à luz do desenvolvimento filosófico e político desse novo – e, até agora, último – conjunto de princípios absolutos criados pelo homem.”.[8]

 

Peter Drucker, com uma básica contextualização de eventos históricos, notando o papel do antinomismo psicanalítico e do determinismo evolucionista na preparação das mentes para a aceitação do nazismo, encontra uma outra ligação entre o liberalismo racionalista e as grandes ditaduras do século XX.

 

Dizer simplesmente que o princípio de autonomia do indivíduo conduz ao totalitarismo pode parecer paradoxal para quem analisa superficialmente essa questão, mas aquele que segue a história ocidental a partir do século XVIII e relaciona, em toda sua complexidade, teoria e prática, o véu do paradoxo se desfaz.

[1] O Melhor de Peter Drucker: obra completa / Peter F. Drucker. São Paulo: Nobel, 2002, p. 479

[2] Peter Drucker. op. cit. p. 481

[3] Idem, Ibidem

[4] Louis Billot. El Error del Liberalismo. Argentina: Cruz e Fierro Editores, p. 38

[5]Em cada um desses domínios, um mesmo princípio se afirma: o da autonomia individual, fundada na rejeição de todas as soberanias absolutas. Se há um tronco comum que permite falar de liberalismo no singular é certamente esse.” – Cf.: O liberalismo econômico: história da ideia de mercado. Pierre Rosanvallon. Bauru, SP. EDUSC, 2002, p. 13.

[6] Louis Billot. op. cit. pp. 61-62

[7] Peter Drucker. op. cit. p. 487

[8] Idem, p. 485





Sobre Camila Abdo

Jornalista (MTB - 0083932/SP; Associação Brasileira de Jornalista -ABJ- 2457) , com cursos nas áreas de jornalismo digital, jornal impresso, fundamentos do jornalismo, jornalismo investigativo, assessoria de imprensa e comunicação interna. Estudante de direito (Unip) e história (Anhanguera), possuo diversos cursos de especialização na área de psicologia/psicopatologia, entre eles: urgências psiquiátricas, perícias criminais, psicopatologia da infância e adolescência, transtornos de personalidade, terapia cognitivo-comportamental, psicanálise: teoria e técnica, gestalt terapia, criminologia, sexualidade - normal e patológica, psicofarmacologia, psicologia forense, neuroanatomia, abuso sexual infantil, predadores sexuais, psicologia social e violência doméstica, enfermagem em saúde mental, medicina legal e psicologia penitenciária. Certificado INBOUND pela HUBSPOT ACADEMY. Meu canal: https://www.youtube.com/c/CamilaAbdoCalvo

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