Branca de Neve – A psicanálise dos contos de Fadas

Livro: A psicanálise dos contos de fada. Autor: Bruno Bettelheim



“Branca de Neve” é um dos contos de fadas mais conhecidos. Sua narrativa remonta a séculos, sob várias formas, em todos os países e línguas européias; daí se disseminou para os outros continentes. Freqüentemente intitulava-se apenas “Branca de Neve”, embora existam muitas variações.17 “Branca de Neve e os Sete Anões”, como é mais conhecido atualmente, é  um título expurgado que infelizmente enfatiza os anões que, não conseguindo desenvolver-se para uma humanidade amadurecida, estão permanentemente presos a um nível pré-edípico (os anões não têm pais, não casam e não têm filhos) e servem apenas para enfatizar os desenvolvimentos importantes que ocorrem em Branca de Neve.
Algumas versões de “Branca de Neve” começam assim; “Um conde e uma condessa passaram por três montes de neve branca, o que fez o conde dizer: “Quisera ter uma filha tão branca como esta neve”. Pouco depois passaram por três buracos cheios de sangue vermelho,  e o conde disse: — Quisera ter uma filha com as faces tão vermelhas como este sangue. Finalmente, viram três corvos voando, quando então ele desejou uma filha  “com os cabelos  tão negros como os corvos”. Continuando o caminho, encontraram uma menina branca como a neve, rosada como o sangue, e de cabelos tão negros como os corvos: era Branca de Neve. O conde imediatamente fê-la sentar-se na carruagem e amou-a, mas a condessa não gostou e pensou apenas como poderia livrar-se dela. Finalmente, deixou cair as luvas e ordenou a Branca de Neve que as procurasse; nesse meio tempo, o cocheiro deveria partir em grande velocidade.


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Uma versão paralela difere apenas no detalhe do casal passeando pela floresta e no pedido de que Branca de Neve descesse para colher um ramo de lindas rosas que cresciam ali. Quando ela desce, a rainha ordena ao cocheiro que prossiga, e abandona Branca de Neve.

Nesses relatos, conde e condessa ou rei e rainha são os pais sutilmente disfarçados, e a menina tão admirada pela figura paterna é a filha substituta. Os desejos edípicos do pai e da filha, bem como os ciúmes que despeitam na mãe fazendo com que deseje livrar-se da filha, são afirmados de forma mais clara aqui do que nas versões habituais. Atualmente a forma mais difundida da história de “Branca de Neve” deixa os envolvimentos edípicos a cargo de nossa imaginação em vez de forçá-los em nossa mente consciente.

As dificuldades edípicas, sejam declaradas ou sugeridas, e a forma como o indivíduo soluciona-as  são  básicas  para  o  desenrolar  da  sua  personalidade  e  relações humanas. Camuflando os predicamentos edípicos, ou intimando sutilmente seus envolvimentos,  os  contos de fadas permitem-nos esboçar nossas próprias conclusões no tempo propício, para conseguirmos uma melhor compreensão desses problemas. Histórias de fadas ensinam pelo método indireto. Nas versões que mencionamos, Branca de Neve não é filha do conde e da condessa, embora o conde deseje-a e ame-a profundamente, e a condessa sinta ciúmes dela.  Na história mais conhecida, a mulher mais velha e ciumenta não é a mãe, mas a madrasta, e  não se menciona a pessoa por cujo amor as duas competem. Por isso os problemas edípicos— fonte do conflito da história — ficam a cargo de nossa imaginação.

Quando, psicologicamente falando, os pais geram um filho, a vinda da criança é o que faz  os dois se tomarem pais. Assim, é a criança que causa os problemas paternos, e, com estes, aparecem os dela mesma. Os contos de fadas normalmente começam quando a vida da criança de certa forma chegou a um impasse. Em “João e Maria”, a presença das crianças ocasiona labuta para os pais e, por isso, a vida se torna problemática para os filhos. Em “Branca de Neve”, não são dificuldades externas como a pobreza, mas as relações entre ela e os pais que criam a situação problemática.

Quando a posição da criança dentro da família torna-se problemática para ela ou para os pais, ela começa o processo de luta para escapar da existência triádica. Com isso, penetra no caminho desesperadamente solitário de buscar-se a si mesma — uma luta na qual os outros servem principalmente de elementos que facilitam ou impedem esse processo. Em alguns contos de fadas, o herói tem de procurar, viajar, e sofrer vários anos de existência solitária antes de estar preparado para encontrar, salvar e reunir-se a outra pessoa numa relação que dá significado permanente às duas vidas. Em “Branca de Neve”, são os anos que passa com os anões que representam o período de dificuldades, de elaboração dos problemas, seu período de crescimento.

Poucos contos de fadas ajudam o ouvinte a distinguir as fases principais da infância de forma nítida como “Branca de Neve” o faz. Os primeiros anos, de dependência pré-edípica absoluta, são mencionados levemente, como ocorre na maioria dos contos de fadas. A história trata essencialmente dos conflitos edípicos entre mãe e filha na infância e finalmente na adolescência, dando maior ênfase ao que constitui uma infância feliz e o que é necessário para crescermos a partir dela.

À história dos Irmãos Grimm começa assim: “Era uma vez, no meio do inverno, quando a neve caía como plumas do céu, uma rainha estava sentada perto de uma  janela cuja moldura era de ébano negro. Enquanto costurava olhando para a neve, picou o dedo com a agulha e três gotas  de  sangue  caíram na  neve.  O vermelho  ficou tão  lindo sobre  a  neve  branca  que ela pensou: — ‘Quisera uma Filha branca como a neve, rosada como o sangue e de cabelos negros como a madeira da janela’. Pouco depois teve uma filha que era branca como a neve, rosada como o sangue e de cabelos negros como o ébano e que por isso passou a chamar-se Branca   de Neve. Quando a criança nasceu, a rainha morreu. Passado um ano o rei casou-se novamente…”

A história começa com a mãe de Branca de Neve picando os dedos e as três gotas de  sangue vermelho caindo sobre a neve! Aqui a narrativa propõe os problemas a resolver: inocência sexual, brancura, contrastada com o desejo sexual, simbolizado pelo sangue vermelho. Os contos de fadas preparam a criança para aceitar um acontecimento que seria conturbador: o sangramento sexual, como na menstruação, e posteriormente na relação sexual quando o hímen é rompido. Ouvindo as primeiras frases de Branca de Neve, a criança aprende que uma quantidade pequena de sangue — três gotas (sendo o número três o mais associado no inconsciente com o sexo). — é uma pré-condição para a concepção, porque a criança só nasce depois desse sangramento. Aqui, então, o sangramento (sexual) está intimamente ligado ao acontecimento “feliz”; sem explicações detalhadas a criança aprende que nenhuma criança — nem mesmo ela — poderia nascer sem sangramento.

Embora saibamos que a mãe morreu quando ela nasceu, nada de ruim sucede a Branca de Neve durante os primeiros anos, apesar de a mãe ser substituída por uma madrasta. Esta só se transforma numa “típica” madrasta de contos de fadas depois que Branca de Neve faz sete  anos e começa a amadurecer. Então a madrasta começa a sentir-se ameaçada por Branca de Neve e passa a ter ciúmes. O narcisismo da madrasta é demonstrado pela sua busca de confirmação quanto à beleza no espelho mágico muito antes de a beleza de Branca de Neve eclipsar a dela.

Quando a rainha consulta o espelho quanto a seu valor — i.e., a beleza — repete o tema antigo de Narciso, que só amava a si mesmo, de tal forma que foi tragado pelo auto-amor. Os país narcisistas são os que se sentem mais ameaçados pelo crescimento da criança, pois isso significa estar envelhecendo. Enquanto a criança é totalmente dependente é como se ela fosse uma parte dos pais; não ameaça o narcisismo paterno. Mas quando começa a amadurecer e atingir certa independência, então é vivenciada como uma ameaça, como sucede em “Branca  de Neve”

O narcisismo faz parte da configuração infantil. A criança deve aprender gradualmente a transcender essa forma perigosa de auto-envolvimento. A história de Branca de Neve adverte sobre as  conseqüências  funestas  do narcisismo tanto  para os  pais  como  para a criança.  O narcisismo de Branca de Neve quase a destrói quando ela cede duas vezes às seduções da rainha, que propõe torná-la mais bonita, e a rainha é destruída pelo próprio narcisismo.

Enquanto morava em casa, Branca de Neve não fazia nada; nada nos é dito sobre sua vida antes de ser expulsa. Nem sobre sua relação com o pai, embora seja razoável aceitar que é a competição por ele que coloca a madrasta (mãe) contra a filha.

O conto de fadas encara o mundo e o que sucede nele de forma não objetiva, mas sob a perspectiva do herói, que é sempre uma pessoa em desenvolvimento. Como o ouvinte se identifica com Branca de Neve, enxerga os acontecimentos como ela os vê, e não como são vistos pela rainha. Para a menina, o amor pelo pai é a coisa mais natural do mundo, e o mesmo,vale para o amor que ele sente por ela. A menina não acha que isso seja um problema — exceto pelo fato de ele não amá-la bastante, preferindo-a a todos os demais. Por mais que deseje que o pai a ame mais do que à mãe, a criança não aceita que isso produza ciúmes dela  na mãe. Mas em nível pré-consciente, a criança sabe bem o quanto sente ciúmes quando os pais prestam atenção um ao outro, quando ela sente que desejaria essa atenção para si. Como a criança deseja ser amada pelos pais — fato bem conhecido, mas que é freqüentemente negligenciado na discussão da situação edípica devido à natureza do problema — é muito ameaçador para ela imaginar que o amor de um dos pais por ela possa causar ciúmes no outro. Quando esse ciúme — como no caso da rainha em “Branca de Neve” — não pode  ser ignorado, então é preciso encontrar alguma outra razão que o explique, o que na história é atribuído à beleza da menina.

No curso normal dos acontecimentos, as relações dos pais entre si não são ameaçadas pelo amor que um deles, ou ambos, dediquem à criança.’A menos que as relações conjugais sejam ruins, ou um dos pais seja muito narcisista, os ciúmes pela criança a quem um dos pais favorece é; pequeno e bem controlado pelo outro pai.

O assunto é bem diferente para a criança. Em primeiro lugar, ela não encontra alívio para   as dores do ciúme numa relação boa como a que os pais podem ter entre : eles. Em segundo lugar, todas as crianças têm ciúmes, senão dos pais, então dos privilégios que eles gozam  como adultos. Quando o cuidado terno e amoroso do pai do mesmo sexo não é bastante forte para formar laços positivo mais importantes com a criança edípica, naturalmente ciumenta, e com isso colocar o processo de identificação trabalhando contra esse ciúme,  então  este domina a vida emocional da criança. Como uma madrasta (mãe) narcisista é uma figura inadequada para se relacionar ou se identificar com Branca de Neve, se  esta  fosse  uma criança real não poderia deixar de ter intensos ciúmes da mãe e de todas as suas vantagens e poderes.

Se uma criança não pode se permitir sentir ciúmes dos pais (Isso é muito ameaçador para  sua segurança), projeta seus sentimentos neles. Então “Eu tenho ciúmes de todas as vantagens   e prerrogativas de mamãe” transforma-se no pensamento “mamãe tem ciúmes de mim”. O sentimento de inferioridade é transformado defensivamente num sentimento de superioridade.

O adolescente pré-púbere ou o filho adolescente pode dizer-se: “Não estou competindo com meus pais, já sou melhor do que eles; são eles que estão competindo comigo.” Infelizmente, há também pais que tentam convencer os filhos adolescentes de que são  superiores a eles — o que os pais podem ser sob certos aspectos, mas a bem do sentimento de segurança do filho e das capacidades dele, deveriam guardar essa idéia para si. Ainda pior, há pais que tentam provar que são tão bons quanto o filho adolescente sob todos os aspectos, o  pai que tenta competir com a força adolescente e as proezas sexuais do filho; a mãe que, pela aparência, roupas e comportamento, tenta ser tão atraentemente jovem como a filha. A história antiga de contos como “Branca de Neve” sugere que isso é um fenômeno muito antigo. Mas a competição entre os pais e o filho torna a vida insuportável para todos. Sob essas condições, a criança deseja libertar-se e livrar-se do pai, que a força a competir ou a submeter-se.  O  desejo de livrar-se dos pais suscita uma culpa grande, por justificada que seja a situação quando encarada objetivamente. Por isso, numa reversão que elimina o sentimento de culpa, esse desejo também é projetado nos pais. Assim, nos contos de fadas são os pais que tentam livrar-se dos filhos, como em “Branca de Neve”.

Em “Branca de Neve”, como em “Chapeuzinho Vermelho”, sempre aparece um homem que pode ser encarado como uma representação inconsciente do pai — o caçador que recebe ordens de matar Branca de Neve, mas em vez disso salva-a. Quem senão um pai substituto poderia aparentemente aquiescer ao domínio da madrasta e, no entanto, pelo bem da criança, ousar contrariar a vontade da rainha? É o que a menina edípica ou adolescente  deseja  acreditar sobre o pai: que, mesmo que ele fizesse o que a mãe lhe ordena, tomaria o partido da filha se fosse livre, como o fez.

Por que as figuras masculinas são projetadas com tanta freqüência no papel de caçadores nos contos de fadas? Embora a caça tenha sido uma  ocupação tipicamente masculina quando  as histórias de fadas começaram a existir, essa é uma explicação muito fácil para o fato. Nessa época, os príncipes e princesas eram tão raros quanto, hoje, mas aparecem com fartura nos contos. Mas quando e onde essas narrativas se originaram, a caça era um privilégio aristocrático, o que fornece uma boa razão para se ver o caçador como uma figura importante, à semelhança do pai.

De fato, os caçadores aparecem freqüentemente nos contos porque se prestam bem para projeções. Toda criança deseja algumas vezes ser um príncipe ou uma princesa — e, às vezes, no inconsciente, acredita que é, apenas estando temporariamente rebaixada pelas circunstâncias. Há tantos reis e rainhas nos contos de fadas porque a posição deles significa um poder absoluto, como o que os pais parecem possuir sobre o filho. Por isso a realeza nos contos de fadas representa projeções da imaginação infantil, bem como o caçador.

A pronta aceitação da figura do caçador como uma imagem adequada para uma  figura paterna forte e protetora — em oposição a muitos pais inexpressivos como o de “João e  Maria” — deve estar relacionada com associações que se ligam a essa figura. No inconsciente o caçador é visto como símbolo de proteção. Em conexão com isso devemos considerar as fobias de animais das quais nenhuma criança está inteiramente livre. Nos sonhos e devaneios,  a criança sente-se ameaçada e perseguida por animais ferozes, invenções de seu medo e culpa. Sente que só o caçador pode afugentar esses animais ameaçadores,  mantê-los permanentemente a distância. Por conseguinte, o caçador nos contos não é uma figura que mata bichos amistosos, mas que domina, controla e subjuga os animais selvagens e ferozes. Num nível mais profundo, representa aquele que subjuga as tendências animais, associais e  violentas no homem. Como procura, segue a pista e derrota o que encaramos como aspectos mais baixos do homem — o lobo — o caçador é uma figura eminentemente protetora que pode realmente salvar-nos dos perigos de nossas emoções violentas e das dos outros.,

Em “Branca de Neve”, a luta edípica da menina púbere não é reprimida, mas se concretiza ao redor da mãe como competidora. Na história de Branca de Neve, o pai-caçador não consegue uma posição forte e definida. Nem cumpre seu dever para com a rainha nem sua obrigação moral com Branca de Neve, ou seja, de dar-lhe segurança e proteção. Não a mata imediatamente, mas abandona-a na  floresta, esperando que seja morta pelos animais ferozes.  O caçador tenta satisfazer a mãe, executando aparentemente suas ordens, e a menina, simplesmente não a matando. Raiva e ódio duradouros em relação à mãe, são as conseqüências da ambivalência paterna, que em Branca de Neve são projetadas na rainha malvada, que, por isso, continua reaparecendo na sua vida.

Um pai fraco pouco serve a Branca de Neve, como também ocorre com João e Maria. O aparecimento freqüente dessas figuras nos contos de fadas sugere que maridos dominados pelas esposas não constituem uma novidade nesse mundo. Mais exatamente, são esses pais que criam dificuldades insuperáveis para a criança ou não conseguem ajudar a resolvê-las. Esse é outro exemplo das mensagens importantes que os contos transmitem aos pais.

Por que a mãe é abertamente rejeitadora nos contos, enquanto o pai freqüentemente só é ineficaz e fraco? Isso tem a ver com o que a criança espera dos pais. No esquema nuclear típico de família, é dever do pai proteger o filho contra os perigos do mundo exterior e  também contra os que se originam das tendências associais da própria criança. A mãe deve prover os cuidados da criança e as satisfações gerais das necessidades físicas imediatas que esta requer para sua sobrevivência. Por conseguinte, se a mãe não o consegue,  a vida dos  filhos fica em risco, como sucede em “João e Maria” quando a mãe insiste em que devem se livrar das crianças. Se o pai, por natureza, não enfrenta suas obrigações, a vida da criança enquanto tal não corre um perigo direto, embora uma criança privada da proteção do pai precise lutar por si da melhor maneira possível. Por isso Branca de Neve tem de se defender sozinha quando é abandonada pelo caçador na floresta.

Só os cuidados amorosos conjugados a um comportamento responsável por parte dos dois pais permite à criança integrar os conflitos edípicos. Se a criança é privada de uma dessas coisas por um pai ou por ambos, ela não poderá identificar-se com eles. Se a menina não  puder formar uma identificação positiva com a mãe, fica presa aos conflitos edípicos,  e também estabelece-se uma regressão, que sempre ocorre quando a criança não  consegue atingir o próximo estágio mais adiantado de desenvolvimento para o qual está cronologicamente preparada.

A rainha, que está fixada a um narcisismo primitivo e bloqueada pelo estágio incorporativo oral, é uma pessoa com quem não é possível um relacionamento positivo, e ninguém pode se identificar com ela. A rainha ordena ao caçador não só que mate Branca de Neve, como também que traga os pulmões e fígado como prova. Quando o caçador traz para a rainha os pulmões e fígado de um animal para provar que executara as ordens, “o cozinheiro cozinhou-  os no tempero, e a mulher malvada comeu-os pensando que comera os pulmões e fígado de Branca de Neve”. De acordo com costumes e pensamentos primitivos, adquirimos os poderes  e características daquilo que comemos. A rainha, com ciúmes da beleza de Branca de Neve, desejava incorporar o encanto da mesma, simbolizado pelos seus órgãos internos.

Essa não é a primeira história de uma mãe ciumenta da sexualidade florescente da filha,  nem é tão raro uma filha acusar mentalmente a mãe de sentir ciúmes. O espelho mágico parece falar com a voz da filha e não da mãe. A menina pequena acha a mãe a mulher mais linda do mundo, e é assim que o espelho fala inicialmente com a rainha. Mas como a menina mais velha considera-se muito mais bonita do que a mãe, isso é o que o espelho diz mais adiante. A mãe pode se desencorajar quando se compara com a filha num espelho e pode pensar: — “Minha filha é mais bonita do que eu”. — Mas o espelho diz: — “Ela é mil vezes mais linda!” —   uma afirmativa análoga ao exagero do adolescente que faz com que aumente suas vantagens e com isso silencie as dúvidas internas.

A criança púbere é ambivalente nos desejos de ser muito melhor do que o pai do mesmo sexo porque teme que, se isso for verdade, o pai, ainda muito poderoso, se vingue. E a criança que teme a destruição devido à sua superioridade imaginária ou real, e não o pai quem deseja destruí-la. O pai pode sofrer com ciúmes se, por seu lado, não conseguiu identificar-se com o filho de modo positivo, porque só então pode sentir um prazer substitutivo com as realizações da criança. É essencial que o pai se identifique intensamente com o filho do mesmo sexo para que a identificação deste com ele tenha êxito.

Sempre que os conflitos edípicos são revividos na puberdade, a criança acha a  vida  familiar insuportável devido aos seus sentimentos ambivalentes violentos. Para escapar do turbilhão interno, sonha em ser filho de outros pais melhores com quem não teria nenhuma dessas dificuldades psicológicas. Algumas crianças vão além, fantasiando e na realidade fugindo em busca desse lar ideal. Os contos de fadas, todavia, ensinam implicitamente à criança que esse lar só existe num país imaginário e que, quando o encontramos, freqüentemente se revela insatisfatório. É o que acontece com Branca de Neve e com João e Maria. A experiência de Branca de Neve numa casa fora do lar é menos assustadora do que a de João e Maria, mas também não funciona bem. Os anões são incapazes de protegê-la e a mãe continua tendo poder sobre ela, poder que Branca de Neve não pode impedir de reconhecer quando permite que a rainha (sob vários disfarces) entre na casa, apesar dos conselhos dos anões para que se prevenisse contra os truques da rainha e não deixasse ninguém entrar.

Não podemos nos libertar do impacto dos pais e dos sentimentos que temos por eles, fugindo de casa — embora esse pareça o caminho mais fácil. Só conseguimos a independência elaborando nossos conflitos internos, que as crianças tentam normalmente projetar nos pais.  De início a criança gostaria de poder fugir do trabalho difícil da integração que, como   mostra a história de Branca de Neve, envolve grandes perigos. Por algum tempo parece possível escapar dessa tarefa. Branca de Neve leva uma existência pacífica durante algum tempo e, sob  a orientação dos anões, transforma-se de criança incapaz de lidar com as dificuldades do mundo, numa  garota que aprende a trabalhar bem e gosta disso. É o que os anões solicitam  dela para que viva com eles; pode ficar e não lhe faltará nada se “você tomar conta da casa, cozinhar, arrumar as camas, lavar, costurar e remendar e conservar tudo limpo e organizado”. Branca de Neve torna-se uma dona de casa, como sucede com muitas meninas que, quando a mãe está fora, tomam conta direito do pai e da casa e até mesmo dos irmãos.

Mesmo antes de encontrar os anões, Branca de Neve demonstra que pode controlar os anseios orais, ainda que estes sejam grandes. Na casa dos anões, embora  faminta,  come apenas um pouquinho de cada um. dos sete pratos e bebe somente um bocadinho de cada um dos sete copos, para não tirar muito de ninguém. (Bem diferente de João e Maria, crianças fixadas oralmente que devoram, com voracidade e sem respeito, a casa de gengibre.)

Depois de satisfazer a fome, Branca de Neve experimenta as sete caminhas, mas uma é comprida demais, outra muito curta, até que no final adormece na sétima cama. Ela sabe que todas as camas pertencem a outras pessoas e que seus donos desejarão dormir nelas, embora Branca de Neve esteja deitada em uma delas. A exploração das camas sugere uma leve consciência dos riscos, e ela tenta instalar-se numa cama que não envolva nenhum.  E tem razão. Os anões quando chegam se enamoram da sua beleza, e o sétimo anão, em cuja cama ela está dormindo, não reclama, e,.em vez disso, “dorme com seus companheiros, uma hora na cama de cada um, até a noite passar”.

Devido ao enfoque habitual sobre a inocência de Branca de Neve, parece ultrajante a noção de -ela ter-se arriscado subconscientemente a dormir na cama com u homem. Mas Branca de Neve mostra, quando se deixa tentar três vezes pela rainha disfarçada que, como a maioria dos humanos — e, acima de tudo, dos adolescentes — cede facilmente à tentação. Todavia, a incapacidade de Branca de Neve em resistir à tentação torna-a mais atraente e humana, sem  que o ouvinte tenha consciência disso. Por outro lado, seu comportamento  controlado  ao comer e beber, e quando resiste a deitar-se numa cama que não seja exata para ela, mostra que também já aprendeu a controlar um pouco os impulsos do id e a submetê-los às exigências do superego. Vemos também que seu ego amadureceu, pois agora trabalha bastante e bem, e compartilha as coisas com os outros.

Os anões — homens pequenos — têm conotações diferentes em vários contos de fadas. Como as próprias fadas, eles podem ser bons ou malvados; em “Branca de Neve”, são do tipo que ajuda os outros. A primeira coisa que sabemos sobre eles é que  voltaram para casa  depois de trabalharem nas montanhas como mineiros. Como todos os anões, mesmo os desagradáveis, são trabalhadores e espertos em seus negócios. O trabalho é a essência de suas vidas”; não têm descanso ou recreação. Embora os anões fiquem imediatamente impressionados pela beleza de Branca de Neve e comovidos com sua desgraça, deixam logo claro que o preço de viver com eles é comprometer-se num trabalho consciencioso. Os sete anões sugerem os sete dias da semana — dias cheios de trabalho. Se quiser crescer bem, Branca de Neve deve transformar o seu mundo em um mundo de trabalho; esse aspecto de sua estada com os anões é facilmente compreensível.

Outros significados históricos dos anões podem servir a uma melhor explicação. Os contos e lendas europeus freqüentemente eram resíduos de temas religiosos cristãos não aceitos, porque a cristandade não tolerava as tendências pagas sob forma aberta. De cerro modo, a beleza perfeita de Branca de Neve parece remotamente derivada do sol; seu nome sugere a brancura e a pureza da luz forte. De acordo com os antigos, sete planetas circundam o sol, daí os sete anões. Anões ou gnomos, no folclore teutônico, são trabalhadores da terra, extraindo metais, dos quais só sete eram conhecidos nos tempos antigos — outra razão desses mineiros serem sete. E cada um dos sete metais estava relacionado a um dos sete planetas na filosofia natural antiga (o ouro ao sol, a prata à lua etc …)

Essas conotações não estão disponíveis para a criança moderna. Mas os anões evocam outras associações inconscientes. Não há mulheres anãs. Todas as fadas são mulheres, os  magos são a contrapartida masculina, e há bruxos e bruxas, feiticeiros e feiticeiras. Por isso,   os anões são eminentemente homens, mas homens que ficaram  bloqueados  no desenvolvimento. Esses “homenzinhos” de corpos atarracados e trabalhando na mineração — penetram habilidosamente em cavidades escuras — sugerem conotações fálicas. De certo não são homens em qualquer sentido sexual — seu modo de vida e o interesse em bens materiais com exclusão do amor sugerem uma existência pré-edípica.

A primeira vista pode parecer estranho identificar uma figura que simboliza uma existência fálica com uma representação também da infância antes da puberdade, um j período durante o qual todas as formas de sexualidade estão relativamente adormecidas. Mas os anões estão livres de conflitos internos e não desejam ultrapassar a existência fálica para chegar a um relacionamento íntimo. Estão satisfeitos com suas atividades; a vida deles é um círculo; de trabalho imutável no interior da terra, como os planetas circulam interminavelmente por um caminho imutável no céu, Essa falta de modificações e ausência de desejo por ela faz a existência deles ser comparável à da criança pré-púbere. Por essa razão, os anões não entendem nem simpatizam com as pressões internas que tornam impossível para Branca de Neve resistir às tentações da rainha. Os conflitos nos  deixam  insatisfeitos  com  nossa maneira atual de vida e por isso nos induzem a encontrar outras , soluções; se não os tivéssemos, nunca correríamos os riscos que envolvem passar para uma forma de viver diferente e mais aprimorada.

O período pré-adolescente pacífico que Branca de Neve vive entre os anões antes de a rainha voltar a perturbá-la dá-lhe forças para passar à adolescência. Assim, entra novamente num período de problemas — não mais como uma criança que sofre passivamente o que a  mãe lhe inflige, mas como uma pessoa que deve participar e se responsabilizar pelo que acontece com sua vida.

As relações entre Branca de Neve e a rainha simbolizam algumas dificuldades graves que ocorrem entre mãe e filha. Mas são também projeções, em figuras separadas, das tendências incompatíveis dentro de uma pessoa. Freqüentemente essas contradições internas originam-se no relacionamento da criança com os pais. Por isso, no conto de fadas, a projeção de um dos lados do conflito interno numa figura parental também representa uma verdade histórica: é  onde ele se originou. Isso é sugerido quando a vida calma e sem acontecimentos que Branca   de Neve leva com os anões se interrompe.

Quase destruída pelos conflitos pubertais iniciais e pela competição com a  madrasta, Branca de Neve tenta escapar para um período de latência livre de conflitos, quando o sexo está adormecido e o turbilhão da adolescência pode ser visto. Mas o tempo ou o desenvolvimento humano não permanecem estáticos, e uma volta à latência para escapar dos problemas da adolescência não tem êxito. Quando Branca de Neve se torna uma adolescente, começa a experimentar desejos sexuais que estavam reprimidos e adormecidos durante o período” anterior. Com isso, a madrasta, que representa os  elementos  negados conscientemente no conflito interno de Branca de Neve, reaparece no cenário e despedaça a paz interna da mesma.

A presteza com que Branca de Neve cede repetidamente à tentação da madrasta, apesar das advertências dos anões, mostram como as tentações da madrasta se aproximam dos desejos internos de Branca de Neve. Os conselhos dos anões para que não deixe ninguém entrar em casa — ou, simbolicamente, dentro do interior de Branca de Neve —- não adiantam nada. (Os anões podem aconselhar facilmente contra os perigos da adolescência porque, estando fixados no estágio fálico de desenvolvimento, não estão sujeitos a eles). Os altos e baixos  dos conflitos do adolescente são simbolizados pelas duas tentações por que  passa Branca  de  Neve, com risco, e sendo salva por uma volta à existência prévia, a da latência. A terceira experiência de tentação finalmente acaba com os esforços de Branca de Neve de voltar à imaturidade quando encontra dificuldades adolescentes.

Embora não saibamos quanto tempo ela viveu com os anões antes de a madrasta reaparecer em sua vida, é a atração dos cintos de fitas que faz Branca de Neve deixar a rainha, disfarçada de vendedora, entrar na residência dos anões. Isso deixa claro que ela já é uma adolescente bem desenvolvida, e, de acordo com a moda dos tempos antigos, precisa e tem interesse nas fitas. A madrasta aperta o cinto com tanta força que Branca de Neve cai desmaiada, como se estivesse morta.

Ora, se o propósito da rainha fosse matar Branca de Neve, poderia fazê-lo facilmente nesse momento. Mas se seu objetivo era impedir a filha de superá-la, bastava reduzi-la à imobilidade. A rainha, então, representa a mãe que temporariamente consegue manter o predomínio parando o desenvolvimento da filha. Em outro nível, o significado desse episódio é sugerir os conflitos de Branca de Neve quanto ao desejo adolescente de estar bem enfeitada porque isso a torna sexualmente atraente. Seu desmaio simboliza que foi esmagada pelo conflito entre os desejos sexuais e a ansiedade quanto a eles. Como é a própria vaidade de Branca de Neve que faz com que deixe a rainha colocar-lhe o cinto, ela e a madrasta vaidosa têm muito em comum. Parece que os conflitos e desejos adolescentes de Branca de Neve são sua ruína. Mas o conto de fadas vai mais além e continua ensinando à criança uma lição ainda mais significativa: sem ter experimentado e dominado os perigos que surgem com o crescimento, Branca de Neve nunca se uniria ao príncipe.

Na volta do trabalho, os anões encontram Branca de Neve inconsciente e retiram-lhe o cinto. Ela volta a si e retrai-se temporariamente para a latência. Os anões advertem-na novamente e de modo mais sério contra os truques da rainha malvada, isto é,  contra  as tentações do sexo. Mas os desejos de Branca de Neve são muito fortes. Quando a rainha, disfarçada de velha, oferece-se para arrumar o penteado de Branca de Neve dizendo: -— “Vou penteá-la convenientemente de uma vez” — Branca de Neve novamente é seduzida e deixa que ela entre. As intenções conscientes de Branca de Neve são subjugadas pelo desejo de ter um lindo penteado e seu desejo inconsciente é ser sexualmente atraente. Mais uma vez esse desejo é “venenoso” para Branca de Neve no seu estado adolescente imaturo, e ela cai desacordada. Novamente os anões a salvam. Da terceira vez em que cede à tentação, come a maçã fatídica que a rainha, vestida de camponesa, lhe entrega. Os anões não podem mais ajudá-la porque a regressão da adolescência para a latência deixou de ser a solução para Branca de Neve.

Em muitos mitos e contos de fadas, a maçã representa o amor e o sexo, nos seus aspectos benevolentes e perigosos. Uma maçã, dada a Afrodite, deusa do amor, mostrando que ela era a preferida entre as deusas, levou à Guerra de Tróia. A maçã bíblica seduziu o homem e fê-lo renunciar à inocência para conseguir conhecimento e sexualidade. Foi Eva quem foi tentada pelo macho, representado pela cobra, mas nem mesmo esta pôde fazer tudo sozinha —  precisou da maçã, que na iconografia religiosa também simboliza o peito materno. No peito materno todos tivemos uma atração inicial para formar uma relação e encontrar satisfação  nisso. Em Branca de Neve, mãe e filha dividem a maçã. Esta simboliza algo que têm em comum e que vai mais a fundo do que os ciúmes mútuos — os desejos sexuais maduros de ambas.

Para vencer as suspeitas de Branca de Neve, a rainha divide a maçã ao meio, comendo a parte branca, enquanto Branca de Neve aceita a metade vermelha, “envenenada”. Repetidamente falamos da natureza dupla de Branca de Neve: era branca como a neve e vermelha como o sangue — isto é, tinha tanto aspectos assexuais como eróticos. Quando come a parte vermelha (erótica) da maçã, termina sua “inocência”. Os anões, companheiros de sua latência, não podem mais ressuscitá-la; Branca de Neve fez sua escolha, tão necessária quanto fatídica. O vermelho da maçã evoca associações sexuais, como as três gotas de sangue que precederam o nascimento de Branca de Neve, e também a menstruação, um acontecimento que marca o começo da maturidade sexual.

Comendo a parte vermelha da maçã, a criança em Branca de Neve morre e é colocada num caixão transparente feito de vidro. Ali permanece por muito tempo. Os anões, e também três pássaros, vão visitá-la: primeiro uma coruja, depois um corvo e, por fim, uma pomba.  A  coruja simboliza a sabedoria; o corvo — como no deus Teutônico.

O corvo de Odin — provavelmente a consciência madura; e a pomba representa tradicionalmente o amor. Esses pássaros sugerem que o sono mortal de Branca de Neve no caixão é um período de gestação, seu período final de preparação para a maturidade.”

A história de Branca de Neve ensina que alcançarmos a maturidade física não significa absolutamente estarmos preparados intelectual e emocionalmente para a idade adulta, representada pelo casamento. São necessários tempo e um crescimento considerável antes que se forme uma nova personalidade mais madura e os conflitos antigos sejam integrados. Só  então estamos preparados para um parceiro do outro sexo, e para a relação íntima com ele,  que é necessária para a realização de uma  idade adulta-madura. O parceiro de Branca de  Neve é o príncipe, que “transporta-a” no caixão, o que faz com que ela, tossindo, expulse a maçã envenenada e volte a viver, pronta para o casamento. Sua tragédia começou com desejos orais incorporativos: o desejo da madrasta comer os órgãos internos de Branca de Neve. Quando esta expulsa o pedaço de maçã que a sufocava — o objeto mau que incorporara — marca sua liberdade definitiva da realidade primitiva, que representa todas suas as fixações imaturas.

Como Branca de Neve, toda criança no seu desenvolvimento deve repetir a história do Homem, real ou imaginada. Todos somos expulsos um dia do paraíso original da infância, quando todos os nossos desejos pareciam ser satisfeitos sem esforços de nossa parte. A aprendizagem sobre o bem e o mal — obter conhecimento — parece dividir nossa personalidade ao meio: o caos vermelho de emoções desgovernadas, o id; é a pureza branca  de nossa consciência, o superego. A medida que crescemos vacilamos entre o turbilhão do primeiro e a rigidez do segundo (o cinto apertado e a imobilidade forçada pelo caixão). A idade adulta só pode ser alcançada quando essas contradições internas são resolvidas e conseguimos um novo despertar do ego maduro, onde o vermelho e o branco coexistem harmoniosamente.

Mas, antes que a vida “feliz” possa começar, temos que colocar os aspectos maus e destrutivos de nossa personalidade sob nosso controle. A bruxa, em João e Maria, é castigada por seus desejos canibalistas, sendo queimada no fogão. Em “Branca de Neve”, a rainha vaidosa, ciumenta e destrutiva é forçada a calçar sapatos de ferro em brasa, com os quais tem que dançar até morrer. O ciúme sexual incontrolável, que tenta arruinar os outros, se destrói a  si mesmo — simbolizado não só pelos sapatos de ferro em brasa mas pela morte que causam, dançando com eles.simbolicamente, a história diz que a paixão descontrolada deve ser refreada ou será a ruína da própria pessoa. Só a morte da rainha ciumenta (a eliminação de toda a turbulência interna e externa) pode contribuir para um mundo feliz.

Muitos heróis de contos de fadas, num ponto crucial de seu desenvolvimento, caem num sono profundo ou renascem. Cada novo despertar ou renascimento simboliza a conquista  de um estado mais adiantado de maturidade e compreensão. É uma das formas do conto de fadas estimular o desejo de um sentido mais elevado na vida: uma consciência mais profunda, mais autoconhecimento e maior maturidade. O longo período de inatividade antes do despertar faz o ouvinte perceber — sem verbalizá-lo conscientemente — que este renascimento requer um tempo de descanso e concentração para ambos os sexos.

A mudança significa a necessidade de abandonarmos algo que até então apreciávamos, como a existência de Branca de Neve antes de a rainha sentir ciúmes, ou sua boa vida com os anões — experiências difíceis e dolorosas de crescimento que não podem ser evitadas. Essas histórias também convencem o ouvinte de que não precisa ter medo de abandonar sua posição infantil de depender dos outros, porque depois de esforços perigosos do período transicional, ele emergirá num plano melhor e mais elevado, entrando numa existência mais rica e feliz. Os que relutam em arriscar-se nessa transformação, como os dois irmãos mais velhos em “As Três Plumas”, nunca obtêm o reinado. Os que ficam presos ao estágio pré-edípico de desenvolvimento, como os anões, não conhecerão nunca a felicidade do amor e do casamento. E os pais que, como a rainha, atualizam seus ciúmes edípicos paternos, quase destroem seus filhos e certamente se destroem.

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