“0 Nazismo foi um regime simpático ao livre-mercado, afinal existiam muitas empresas privadas na Alemanha de Hitler”.”

LIVRO: NÃO, SR. COMUNA.



 

Não. SR. COMUNA . Sua visão dos fatos, baseada no senso-comum, é completamente equivocada. Caso vossa senhoria canhota não saiba, Hitler, que assumiu o cargo de chanceler em 1933, era do Partido Nacional SOCIALISTA dos Trabalhadores Alemães. Ludwig von Mises explicou, em palestra em 1959, em Buenos Aires, que a diferença entre o socialismo russo e o nazismo alemão era que no último foram mantidos a “terminologia” e os “rótulos” do sistema de livre economia, mas embora a propriedade privada existisse de “direito”, ela pouco existia “de fato”. Ainda existiam “empresas privadas” na Alemanha nazista, mas o proprietário já não era mais um empresário, e sim um “gerente” ou “chefe” de negócios (Betriebsführer). Hitler aplicoutambém o controle de preços na economia durante a década de 30. As empresas tinham que obedecer ao Ministério da Economia do Império (não vou colocar o nome em alemão, pois é ENORME). E esses determinavam às empresas o que produzir, em que quantidade, onde comprar e vender as mercadorias e a que preço. Os trabalhadores eram designados para determinadas fábricas e seus salários eram decretados pelo governo. Todo o sistema econômico era regulado pelo governo. Isso está longe de ser livre-mercado. Isso está longe da liberdade que deveria existir no capitalismo.
Como chamar de livre-mercado um sistema onde o proprietário da empresa, o Betriebsführer, não tinha o direito de se apossar dos lucros? Era isso, ainda segundo von Mises, que acontecia na Alemanha nazista. Se requisitasse uma soma maior, para fazer uma operação, por exemplo, o “proprietário” era obrigado a consultar o führer do distrito (o Gauführerou Gualelter), que o autorizaria – ou não – a fazer uma retirada superior ao salário que lhe era pago. A economia na Alemanha foi seguindo na direção de um grau maior de interferência do governo no mercado ao longo dos anos de Hitler no poder, mas os nazistas não desejavam o completo intervencionismo com a abolição da iniciativa privada.
Apesar de Hitlerter se aproximado de empresários durante a década de 30 e não ser “em tese” avesso à propriedade privada de alemães, ele acreditava que o Estado, e não o mercado, é que deveria determinar o desenvolvimento econômico. 0 anticapitalismo de Hitler era na verdade puramente antissemita, ou seja, Hitler não tinha simpatia pelos capitalistas judeus, que na sua opinião, queriam con- trolartudo.
A intervenção na economia alemã, como dito, foi aumentando gradualmente. 0 governo controlou os salários, que foram congelados em 1934 e permaneceram fixos até 1945. Foram abolidas as centrais sindicais, as greves foram proibidas e todos os trabalhadores, inclusive os de colarinho branco, tiveram que se filiar à Frente de Trabalho Alemã, organização nazista vinculada à Câmara Econômica do Reich. Cada ramo industrial obrigatoriamente estava organizado em grupos econômicos controlados pelo Grupo Industrial do Reich. Comércio, bancos e agricultura ficaram sob jurisdição de um dos outros grupos do Reich. 0 Estado interferia diretamente nos métodos de produção.
Os nazistas adotaram planos quadrienais para intervir na economia a partir de 1933, sendo que o primeiro, que durou até 1936, buscava a criação de empregos e a retomada do crescimento econômico num quadro de retração do comércio mundial. Mas foi durante o segundo plano quadrienal (1937-1940), que foi liderado pelo ministro Hermann Gõring, que o governo passou a intervir ainda mais na economia, que deixou de ser uma economia mista keynesiana, para passar a ser uma economia de comando ou gerenciada (Gelenkte Wirtschaft), sem ser uma economia centralmente planejada. Nesse período, o imposto para os alemães mais ricos aumentou. Aos poucos, os empresários começaram a perceber que o nazismo era avesso ao livre-comércio.
O pesquisador Ricardo Luis Chaves Feijó escreveu sobre o intervencionismo na Alemanha nazista:
A economia parcialmente descentralizada do Terceiro Reich esteve longe do modelo de uma economia clássica de mercado na qual a eficiência é alcançada pela ação do sistema livre de preços:4 É evidente que o mecanismo de mercado, orientado pela sinalização dos preços, não pode funcionar muito bem no sistema econômico com preços controlados. Não se pode alcançar grande eficiência pela ação do mercado em um sistema relativamente centralizado como o foi o alemão na época do poder nazista.
A ideologia da Alemanha de Hitler não era simpática à liberdade econômica, assim como a ideologia socialista da União Soviética de Stalin, A diferença maior é que, na última, a administração da economia foi feita de uma maneira centralizada, abolindo quase completamente a propriedade privada, A Alemanha, como explicado pelo pesquisador Ricardo Feijó, estava longe de ter um sistema econômico liberal, onde a eficiência é alcançada pela existência de um sistema livre de preços. Em um sistema em que a economia tinha tanta intervenção do governo, como foi a economia alemã nazista, em que os preços e salários foram controlados, não há como o mecanismo de mercado funcionar tão bem. Falar que existia liberalismo na Alemanha nazista pelo simples fato de que a propriedade privada não foi abolida em sua totalidade, é analisar a economia e ideologia existentes ali de forma completamente equivocada. A economia alemã manteve algum grau de eficiência pelo fato de que, embora sofressem intervenções, ainda existia a figura da propriedade privada, e os empresários desejavam perpetuar seus negócios. Embora o estado nazista interferisse, os empresários alemães tinham mais autonomia para gerir suas empresas do que os líderes setoriais num regime de economia planificada como o da União Soviética. Mas a verdade é que o nazismo não tinha nada de liberal, nem na economia, nem nos hábitos, e muito menos na filosofia.
Estado inchado, alto grau de intervenção nas empresas, controle de preços, congelamento de salários. Estas características do nazismo soam como música para muitos esquerdistas. Muitos partidos ditos socialistas dos dias atuais inclusive defendem muitas dessas coisas nas suas plataformas. Adeptos do livre-mercado, por outro lado, têm arrepios ao imaginar qualquer uma dessas coisas. 0 nazismo foi simpático ao livre-mercado?

Conta outra, sr. comuna.

Anexo: o Programa do Partido dos Trabalhadores Alemães, que depois mudou seu nome para Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, publicado em 24 de fevereiro de 1920, mostra o caráter socialista e autoritário que o partido tinha à época. Leia alguns dos termos defendidos no documento:
-Portanto, nós exigimos que toda renda não merecida, e toda renda que não venha de trabalho, seja abolida;
-Nós exigimos a nacionalização de todos os grupos investidores;
-Nós exigimos participação nos lucros em grandes indústrias; -Nós exigimos a criação e manutenção de uma classe média sadia, a imediata socialização de grandes depósitos que serão vendidos a baixo custo para pequenos varejistas, e a consideração mais forte deve ser dada para assegurar que pequenos vendedores entreguem os suprimentos necessários ao Estado, às províncias e municipalidades;
-Nós exigimos uma reforma agrária de acordo com nossas necessidades nacionais, e a oficialização de uma lei para expropriar os proprietários sem compensação de quaisquer terras necessárias para propósito comum. A abolição de arrendamentos de terra, e a proibição de toda especulação na terra.

Ao leitor, uma pergunta: estas políticas defendidas em 1920 pelo partido de Hitler lhe parecem liberais? Acredito que, na verdade, muitos socialistas e esquerdistas em geral é que ficariam satisfeitos se algumas destas políticas autoritárias fossem aplicadas sobre a população.




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